terça-feira, 13 de dezembro de 2011

E rola a bola!

"Dizem que sou louco, por pensar assim..."

A camisa vira pele. E da pele, pinga o suor - que poder ser fruto de um dia quente, mas quando vinculado a camisa (e a tudo que ela representa), vem da agitação, do nervoso, da empolgação ou afins. Na verdade, é tudo isso junto - somado a paixão.
(...)

O meu Vô, o herói que eu nunca tive a oportunidade de conhecer, dizia que futebol é coisa de maluco... que ninguém deveria atrelar tanta emoção à uma partida de bola, à uns mercenários patrocinados, à um esporte corporativo.
Olha Vô, eu só ouço as melhores estórias quando se trata do senhor, mas aí devo discordar, viu? A gente sabe que tem muita coisa errada e complicada por trás de cada lance. A gente entende que a "distração" de toda quarta e domingo serve bem ao Estado, à essas corporações e a tudo que esses dois, juntos ou separados, fazem de ruim... E pode até ser que, assim, em plena consciência dos fatos e optando por ignorá-los, sejamos hipócritas. Muito, pouco ou simplesmente "hipócritas". Às vezes por preguiça, mas no meu caso, é por paixão mesmo. Deus (aquele que eu não acredito) sabe como eu tendo a me revoltar com tudo isso aí, mas eu amo futebol e quando é ele o analisado da vez, eu escorrego pro sentimento. Pela bola tocada de um pra outro, de outro pra um... Pelo grito de gol, pelos gritos de uuh. Por todos os gritos! Por todo mundo ali, junto, gritando. Ali ou em casa, gritando com a boca, a mão ou com os olhos. Pelas 'casas' de cada time e os confrontos empolgantes que chamamos de clássicos. Pelos campeonatos internacionais. Pelos craques, e os pernas-de-pau. Pelos jogadores e os campeonatos todos! Cada time é uma super-potência, e em cada um jogam 11 super-potências por vez. Aí tem as mil e tantas super-potências da arquibancada, que vão lá, e, "unindo-se a camisa e a casa", deixam claro: morreriam de tristeza, pela sua bandeira, mesmo que somente em espírito - quando ela, por qualquer motivo, não conseguir vencer a partida.
Ah, antes que tudo isso soe extremamente ortodoxo, o clubismo existe sim senhor! Essa história de "perfeição analítica" e "paixão onisciente" não é pra mim. Eu amo futebol, mas eu amo mesmo é o meu time! Eu reconheço a jogada bonita do Corinthians, mas eu só grito e explodo quando a jogada é feita na Vila, por outra bandeira, por jogadores vestidos de branco.
Amanhã? Ah, amanhã é dia, querido Vô... Eu respeito, e reconheço a sua filosofia. Mas só eu sei como eu me sinto na véspera, como eu me sinto durante e como eu me sinto depois. Eu amo futebol!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ex-planeta

Cala a boca, cortex pré-frontal. Ele foi embora. Era um belo espécime, eu entendo sua escolha. Mas se move rápido demais. E sim, palmas pra nós, conseguimos atrair a atenção dele por um tempo. Agora é sério, preciso da sua ajuda pra não pensar mais nisso... Porque acabou no âmbito racional. Agora só depende de nós. E olha, aposto que o cortex pré- frontal dele vai agir de acordo, hein... Faça o mesmo. Ou tente, meu amigo, por favor! Inclusive, seu apelido agora é Pluto - um bobão que gosta de orbitar em volta do Sol, quando, oficialmente, não é mais um planeta.

sábado, 3 de dezembro de 2011

o sábado, a noite e o mórbido!

Um tempo atrás eu e uma amiga tentamos brincar de escrever. Uma escolhia um tema, as duas escreviam sobre, dento de alguns termos. Próximo texto, a outra escolhia o próximo tema. Não durou muito não, haha, as duas tendem meio forte demais à melancolia, sem falar a disposição literária - que foi ficando curta, duvidando de si própria. Mas enfim. Rendeu uma coisinha ou outra mais ou menos boa, né.

Aqui vão dois textos, meu e dela, a Lu, refente à um mesmo tema. O primeiro que arriscamos fazer, inclusive. A gente decidiu escrever sobre... bom, vejam aí, haha.

Vai ficar um post enorme e assustador, viu! Perdão.


1. victória 
A pele excessivamente clara poderia ter sido injusta com a tradição, não dando muito espaço ou destaque para o tecido completamente branco. Não foi o que aconteceu, e aos 22 anos, Olívia ainda no salão onde os ajustes eram feitos, se uniu ao vestido e fez surgir uma bela noiva. Era outono, a estação perfeita.
Escolheu um modelo simples, feito de tecidos delicados. Sem mangas ou bordados, se armava de leve na parte de baixo, finalizando-se com feixes incoerentes de véu branco. Complexo, porém imaturo nos detalhes mais íntimos – como quem o vestiria. Os cabelos estavam prontos para receber um único enfeite, um lírio branco na parte lateral. Foram presos a partir de uma trança complicada, que se transformara em um coque ainda mais complicado. Usaria uma única jóia – um brinco feito de pérolas rosa, que ganhara da avó no seu décimo segundo aniversário. No rosto, as profissionais atenciosas espalharam tonalidades meigas e simples, arrebatadas pelo detalhe final – os lábios em vermelho intenso.
Aquela tarde era... diferente de todas as outras. Ela sabia disso, e tentava ao máximo memorizar cada detalhe. Fechava os olhos, quando ninguém estava observando, respirava longamente - fazendo um pedido surdo e emocionado ao seu próprio coração – que guardasse esse dia, que guardasse esse minuto e o mais importante, que guardasse esse sentido.
(...) 
Pediram pra que aguardasse mais um pouco. Mas se sentia muito... feliz para aguardar! Olívia saiu correndo, segurando o tule do vestido alvo em uma das mãos, a outra destinou ao enorme lírio branco que abençoava sua cabeça, buscando poupá-lo de sua correria apaixonada. O sorriso aberto, os olhos verdes úmidos – roubados por aquela emoção inexplicável que foi ampliada, enquanto disparava sorrindo pelos corredores do Pallace, para resgatar seu noivo sensível das pressões finais. O vestido, mesmo seguro em uma das mãos ansiosas, se espalhava farfalhando delicadamente as suas costas.
Ela corria, emocionada, sorrindo, corando – o que seus convidados chamavam de falha, ela traduzira como detalhe final – a prova de amor mais delicada e pura que ele poderia lhe dar. O conhecia tão bem... Os seguranças haviam avisado seu pai excessivamente vigilante: ele não havia saído do quarto ainda. Estava assustado, era só isso... Não tinha nada haver com o que seus parentes sensacionalistas estavam pensando, e ela sentia isso enquanto corria, tinha uma certeza incrível e maravilhosa – e também por isso as lágrimas rolavam. Não era sobre desistência, era só amor demais – direcionado de maneiras românticas, porém complicadas. Ele é sensível, um apaixonado, nunca a magoaria de maneira alguma. Estava hesitando, não por ele – e sim por ela. Era só amor de mais, era só isso!
Abriu a enorme porta de madeira com um gesto grandioso e anunciado. Buscou, com um sorriso que já não lhe cabia nas feições, buscou o Noivo com olhos, pelo enorme cômodo. Onde ele est...
(...) 
Ela negou em voz baixa, três vezes. Soltou a saia do vestido. Soltou, sem perceber, todo o seu corpo sobre os joelhos. Cedeu, sentada, quase sem ar nos pulmões, quase sem sângue nas têmporas.
Compreensão, é mesmo um processo curioso. Negar é o mais sensato, nos instantes iniciais. Logo depois, buscam-se motivos, algo que justifique o que sua mente tenta, a mil, desesperadamente processar. Motivos, normalmente são os mais fiéis aliados da compreensão. Hoje não são, e na falta deles, antes mesmo da dor da perca, Olive se encheu de incompreensão - uma dor, como vestida de noiva e de sonhos, ela pode notar, um milhão de vezes pior.
O grito. Poderia ter sido alto, ensurdecedor. Mas sua asma em pico, não permitiu. Foi vazio, quebrado, baixo. Morreu assim que deixou sua garganta. Escorreu.
Quis odiá-lo, quis odiar-se. Poderia ter saído correndo, sem direção, sem pensamentos – só parando quando seus pulmões recusassem ajuda. Levantou-se serena, no entanto, e, cambaleando, meio rápido demais, tropeçou e postou-se sentada novamente, do lado do... Levou as mãos trêmulas até o rosto no chão, chamou o nome... As lágrimas chegaram. Chegou também o desespero, a dor imensa. Abraçou-o, pelo peito, já frio. Tentou gritar, um não, um nome, um "por favor", qualquer coisa. Não conseguia soltá-lo, segurava a cabeça em uma das mãos, com a outra travava um abraço forte no tórax. Ficaria assim pra sempre! Ficaria...! A idéia de soltá-lo a matava em resposta... em resposta.
O vestido de Olívia terminava com feixes desconexos e harmoniosos de véu branco, uma longa cauda estilizada... começou a absorver o carmim líquido que os cercava, espalhado, já frio no piso de mármore. Os pulsos, por um momento de demência ela divagou, ele escolheu os pulsos... Era mesmo um poeta.
E de novo, quis odiar-se, dessa vez com mais intensidade. Notando, por fim, que não poderia se aguentar... Três sentimentos a rasgavam por dentro: uma espécie de culpa incompreendida; o maior desespero do mundo; o enlightening final. Sorriu, se concentrando demais neste último, sorriu – ficou claro: Estava morta também, mesmo respirando, estava morta como ele. 
Alguém abriu a porta, gritou, chamou e fez chegar ajuda. A noiva, jovem, arruinada e manchada de vermelho, foi forçada a soltar o noivo... Mas tudo bem, porque já sabia o que fazer. Hoje, quando a isolassem num quarto de hotel, numa ala psiquiátrica, qualquer lugar, ela sabia perfeitamente como prosseguir. Quis odiá-lo, novamente... Talvez não estivesse pronta, e... Passou, passou bem rápido, essa ideia inestruturada de revolta. Despertou, uma última vez, e concentrada, decidiu que queria se despedir antes que a arrastassem a fora dali... Driblou e silenciou todos os espectadores que já haviam se juntado à cena com dois gestos: levantou uma mão pedindo um momento, a outra, fez mirar o corpo... Caiu de joelhos, bem mais controladamente dessa vez. O vestido, aquele que ela amou tanto durante o dia todo, agora só parecia pesado, apertado e quente... Abraçou ele outra vez, ninguém tentou impedir. Passaram alguns minutos assim e, ninguém ousou tentar impedir. O mundo já tá girando mais devagar, ela percebeu... Tudo bem, meu amor, eu já vou também. Percebeu também que o seu pequeno, o seu amor já não parecia tão frio ante a sua pele. A caloria de Olívia o fez parecer somente adormecido – um menino pálido, de olhos azuis, cabelos negros e cortes fundos em ambos os pulsos que... dormia, convidando, imóvel, ela pra dormir também. 



2. luana
A carta de letras trêmulas debaixo das finas alianças douradas se desculpava. Se desculpava pelo dia, pelos atos. Pedia perdão para uma mulher que não podia ser a mesma que vestia agora um vestido branco e um véu. Pedia perdão por fatos que esta desconhecia.
 A carta. A carta de letras trêmulas não anunciava um final, não anunciava um começo; era assinada “com amor”, por aquele que há poucos meses, ajoelhado no chão do vagão de trem quase cheio – com cheiro de cansaço –, estendera os braços em um ato tímido do típico pedido de amor eterno: “Eu nunca serei príncipe encantado, mocinho de filme americano ou intelectual barbado; mas eu nunca serei tanto quanto sou com você, nunca serei tão meu quanto sou seu...”. A voz feminina denunciava a passagem do tempo, a parada do veículo em uma nova estação. “Se casa comigo?”. O romance se perdia entre as páginas de jornal, entre o som das conversas ao telefone; o romance se perdia entre as estações. Com ou sem romance, a moça de olhos cansados também nunca havia sido tão feliz; só o “Sim” se encorajou a deixar seus lábios. 
Os passos apressados começam a ser ouvidos por todos os cômodos; as pias de cada banheiro tem sua calma interrompida de segundo em segundo: as mãos se apressam, o dia é atípico. 
Os pincéis, que acariciam a face da jovem sentada no banco de madeira, cobrem o cansaço, descobrem a satisfação. O pente, em movimentos bruscos, maltrata os fios escuros de cabelo, sem a intenção de ferir. O vestido extremamente branco é colocado com cuidado, sem estragar um penteado quase impecável, ou a máscara delicada produzida pela maquiagem. 
As badaladas incansáveis, as flores envoltas por laços, os trajes finos; o sol. O sol completa um cenário exato e perfeito de um dia certo.
 Do carro prateado, sem luxo, os sapatos brancos procuram a firmeza do chão. As mãos cansadas de tremer, amassam o vestido branco, procurando livrá-lo da sujeira. Os carros de polícia estacionados de maneira confusa, os corpos bem vestidos levando as mãos às cabeças. As portas da capela extremamente abertas. O vestido se arrastando pelo chão; o buquê fino, de flores de cores vivas, para trás. Tudo o que os olhos ainda cansados conseguem focar é o corpo sem vida, de olhos abertos, nas escadas do altar. 
Cada lírio tem a cor alterada pelo som das lágrimas. O sino cala. O silêncio fere mais.