sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Deixa disso, 2012!


Não sabia com que foto ilustrar esse monte de baboseira. 
Percebi, então, que sempre pode ser com peônias.



Olha só, tá todo mundo falando do Ano Novo.
Eu sei que é importante renovar, sempre é. E que a meia-noite do dia 31 é só uma data simbólica, um chamado e um convite pra esse processo se iniciar. 

O ideal é se renovar harmonicamente, pulando ondinhas, respirando fundo, compartilhando abraços e desejos positivos do lado de quem a gente gosta. Mas... agora aqui, tentando pensar em metas e alvos de mudança, percebo que a minha impaciência capricorniana nem ligou pro simbolismo. Esse ano, esse ano escuro, maluco e encantador, o lance de "se renovar" foi ininterrupto, caótico e veloz - não esperou meia-noite, nem dia 31.

Eu gosto de tomar muito cuidado nesses textos aqui. Dificilmente tem haver com o que os outros vão pensar. É que é perigoso almejar por um ano mais calmo, melhor e mais bonito. Sem falar que 2012 foi tudo isso sim, à seu modo! E também não sou e nem quero ser o próximo Paulo Coelho (até porque este posto já está tomado). Então nada de conselhos e manuais cor-de-rosa.

Umas lembranças, uns agradecimentos caprichados... antes de arquivar esse dois mil e doze feroz.

Aquele abraço pra quem permanece. Desde irmão de sangue, à irmã de alma. Não devia agradecer nada que vem de vocês, pois nosso pacto silencioso de lealdade absoluta deixa a obrigação de "estar sempre lá" implícita. Então, não vou agradecer... Acho que vou só é abraçar mesmo, e relevar, e renovar, e fortalecer sempre.

Aquele sorrisão pra quem chegou, e ficou. Principalmente os que vieram de mala e cuia, falando de futebol, política, música boa e dia-a-dia dividido. Vocês... me salvaram, sabe? Parece que foi tudo, assim, meio planejado mesmo! Fora uns incidentes de caráter nulo e estado mental duvidoso que a gente sempre acha pelo caminho, cada um de vocês tomou pra si uma importância gigantesca aqui dentro, e foi quando eu mais precisava. Tem gente aí que eu nem vou mais ver todo dia, e por isso eu agradeço. Em compensação, perdi o contato diário com uns cinco ou seis que eu já tava mais do que apaixonada por! É pra lamentar sim, mas não significa mais nada além do que de fato é: contato diário - em falta; o resto, só cresce e tonifica.

Aquela piscadinha pra tal da outra metade da laranja. Quem disse que o mundo não acabou esse ano, não sabia do que tava falando. 2012 fez a gente de tonto, deu na cabeça e no meio, separou e fez doer pra valer. Pobre de nós dois, brincando de "final infeliz"! Foi infeliz sim, esses meses sem você... Só que aí eu lembrei que meu coração é o seu coração, e juntos eles batem, em unissom, como o um só que de fato são, pra sempre, meu amor

Aquele au'revoir pros erros. Pros erros todos...! Desde os cometidos por mágoa, saudade, irracionalidade. Aqueles planejados, também: tchau pra eles, por favor! E principalmente pros erros dos outros. Longe de mim ser pura e espiritualizada à ponto de colocar meu destino na mão de um karma que eu nem acredito - até porque, isso é papinho de gente mal-intencionada, sempre. Também sou péssima pra esquecer e perdoar. Mas posso ignorar, justificáveis ou não, os erros alheios. Então, feito.

Tem também um último beijo pros pretendentes, paixãozinhas e desconhecidos do ano. Advinha quem namorava desde sempre e cresceu muito com tudo o que aconteceu esse ano? É... hahaha, foi divertido! Não devo falar muito mais, em respeito à um certo amor-da-minha-vida que passa por aqui, mas experiência é sempre bom! Sem falar dos feitos - conquistas míticas! Tiveram também os beijos que me roubaram, e as festas e noites que, sim: eu prefiro nem lembrar!

Tem, ainda, aquele dedo médio bem alto e levantado pra quem só veio fazer bagunça, escândalo e maldade. Entendi, finalmente, porque eu gosto mesmo é de seguir os caminhos da diplomacia: conflito me enjoa. Não é porque eu não sei brigar, me defender ou... marcar território (pois é, Guilherme). Eu sei. Descobri mais: que consigo (e preciso) ir sempre até o final, cabeça à cabeça. Não quer dizer que eu goste. Não acredito em paz absoluta, se é isso que está ficando implícito. Mas guerra... me enjoa. Baixaria e deslealdade, mais ainda.

All said, tem o tal do ano novo chegando, né? Cheio de esperança! Ok, me rendo à um único parágrafo pra pedir por 2013. Ia de "fé", mas essa é uma palavra muito especial e complicada. Dificilmente a uso, e é pra não usar em vão. Esperança, então: de que vai melhorar, e dar certo onde tem que dar. De que o "irremediável" vá doer menos, e ensinar mais. De que os "altos" e "baixos" vão ser, respectivamente, mais grandiosos e menos penosos. De que cheguem amigos novos e laços ainda mais apertados pra enrolar os antigos!, e de que os babacas que vem só pra tirar sangue, cortem caminho. Porra, muita esperança então! Pros sorrisos se firmarem, e pra que aquele montão de lágrimas, que a gente como fêmea sabe com certeza que há de vir, sejam só salgadas - sem o amargor. Basicamente, eu tô cheia de esperança. E desejo de verdade que os meus, e os vossos -, próximos 365 dias sejam, não perfeitos, quiçá "melhores" - mas que a gente possa se orgulhar muito deles.

sábado, 15 de dezembro de 2012

When the lights go out


O sol azulado de julho ignorou as cortinas, marcando violentamente seus olhos semi-cerrados às 9 da manhã. Lá fora a cidade respirava, pulsava e rugia típica do horário – era São Paulo, em todo o seu caos sul-americano.

Não cedeu ao sol, fechou mais os olhos, reflexivamente. Até que sua consciência começou a submergir. Dormiu mal, e pouco, lhe explicava a cabeça latejante.

Hoje seria o pior dia de sua vida, e disso ela já sabia antes mesmo de espalhar os braços para o lado, procurando em vão o corpo quente que mais cedo esteve tão junto do seu.

Por menos de um instaste se permitiu pensar na possibilidade de ele estar no banheiro, no terraço… mas nem com os olhos buscou. Ele tinha deixado o quarto já há muito tempo, mas ela sabia – há anos ela sabia. Ele deixaria o quarto a noite, viajaria para longe de novo… e pronto.

Um banho veloz, quente e entorpecente  Enquanto a água caia, ela mal piscava, ou pensava. Deixou-se vagar entre o sono e a estupefação. Já não sabia mais como dar vazão àquele tipo ridículo de sentimento.

Jeans e uma camiseta escura, antiga, de mangas longas em formato de sino. Sapatos simples e escuros, sem salto ou beleza. O cabelo preso em um rabo-de-cavalo alto, deu destaque as sobrancelhas agressivas. Olhos riscados sutilmente de preto e os cílios alongados daquela forma felina. No pescoço espalhou colônia. Nos lábios, vermelho. Valium, dois comprimidos. Uma lâmina com as iniciais do hotel, ao alcance dos dedos. Abraçou-se a um instinto. Deixou vir a tona tudo o que de fato sentia – e isso percorreu seus braços, suas pernas, girou seu estômago, eriçou sua pele, rompeu em seus olhos. Respirou com leveza, evitando ouvir o próprio corpo chiar, acalmando a fluência elétrica de sensações. Sentou-se de costas para a banheira de louça. Pensou na infância, sua infância bucólica. Pensou na cidade, no centro, nos prédios e árvores mais bonitas. Depois pensou neles, nos primeiros anos, nos seus olhos furtivos...

Três dias passados. Em Frankfurt, pela manhã, ele recebeu a notícia. Disparou um único tiro contra a própria cabeça quatro horas depois, vestido para a ocasião – nos trajes e também nas lembranças.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Babe, it's cold outside

"Dezembro. Dublin, esse frio absurdo.
Um banco gelado, uma caneta falhando e as pontas dos dedos congelando só pra poder escrever uma carta à mão. É que... Tem uma Árvore de Natal gigante aqui. Ela tem uns 15 metros e é natural. Fica dentro de uma galeria, no centro da cidade. Me disseram que é tradicional, classic irish, todo ano tá aí. É muito, muito bonita mesmo. Não tem nada dourado, nem glitter, nem laços vermelhos gigantes. Só o verde profundo de um pinheiro de verdade invadido, sutil porém completamente, por luzes de todas as cores. Luzinhas. São pequenas - ou a árvore é que é simplesmente muito grande mesmo. E são muitas, incontáveis. Elas brilham bem, mas não ao ponto de roubar o verde-escuro do pinheiro, sabe? Queria tirar uma foto pra você, mas a câmera do meu celular tá engraçada, e a outra ficou no Brasil, dessa vez. É simplesmente uma das coisas mais lindas que eu já vi. Você, então, iria delirar. Árvores e luzes: são seus amores. Iria ficar parada umas duas horas por dia em frente a árvore, eu sei que sim. Principalmente durante a noite, quando tudo em volta apaga e as luzes roubam a cena. Tá um frio desgraçado já. A respiração, sai em nuvem... Eu quase consigo ver você aqui. De touca, cachecol e um casaco enorme, encarando a árvore com os olhos cheios de água, refletindo ainda melhor as 9.000 luzes. Respirando em formato de fumaça branca, tentando me explicar o quanto ama luzes e árvores de natal. É... se eu me concentrar bem, eu quase consigo te ver. Ponta do nariz vermelha, aquela carinha de quem "não consegue expressar plenamente o quando se sente feliz perto do Natal". É só eu olhar fixamente pra árvore durante um tempo, que é como se você estivesse do meu lado, no banco, me convidando pra te abraçar com aquele meio sorriso torto. Acho que é por isso que, desde que voltei, passar uns bons minutos aqui, diariamente, virou regra. Você tinha que ver essa árvore, Vic-nic.
Always, G."

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Hell Of A Season

Você morreria pela primavera?
Não. Eu morreria pelo Sol. O meu Sol. Esse ano eu tentei aprender a viver no escuro. Só serviu pra constatar que sem Sol, a gente não vive. Aproveitando o título, a onda e o novo vício, vou para-frasear Black Keys pra exemplificar: I will be dead when you were gone. Agora vem aqui, para com essas viagens bobas. Vem e fica. Aqueles dias lá em casa foram tão lindos! Matamos, juntos & de uma vez por todas, fantasmas e saudades. Conversamos sobre nossos livros favoritos, a tristeza das coisas todas e como o nosso futuro só pode ser o mesmo. Agora, o que me enlouquece, é a distância imposta. Sobre a primavera, então... quem não gosta de flores, roupas gracinha e amores eternos? Morrer por ela, eu não sei. Agora, sem ela, com certeza!

Mas e o outono?
O que é outono? Outono é passar frio na rua e calor embaixo do edredom? Outono é morrer por dentro pra nascer denovo? Não, poxa. É aquele vento gelado que não deixava vocês acenderem o cigarro lá fora. É aquela música lírica, aqueles sorrisos espelhados e aquele soninho que vem depois do beijo. Sabe aquele silêncio soturno que o mundo tranca a gente em antes de o final de algo? Isso é outono. E, acredite, pra gentinha tipo você (que tatua uma âncora próxima ao coração e se preocupa com ovos de páscoa), a beleza solitária que o outono trás pode ser fatal, mas também pode ensinar tanto!

Inverno tem haver com falhas, né? 
Tem que ter. É a estação mais linda, séria e triste do mundo... inevitável, como errar e sofrer com os erros por aí. Black Keys diriam que  "mesmo sem você saber ou reconhecer, eu faria qualquer coisa para garantir sua felicidade". O inverno tem dessas. Inverno, às vezes, é abrir mão de ser mimada. É deixar quieto "porque é certo", ou porque tá frio demais pra lutar cabeça-à-cabeça. Sabe quando parece o fim do mundo e/ou a maior das injustiças? Então, é o inverno te explicando que vai ficar tudo bem. "Tudo bem quando ele voltar", "tudo bem depois das férias", "tudo bem sem isso", "tudo bem com aquele tantão de aquilo".

O que nos leva a última, o Verão.
A estação dos biquínis molhados e dos livros devorados em poucas madrugados. A estação dos óculos escuros, do carnaval, da cerveja gelada, da família toda parando o que está fazendo pra observar um pássaro silvestre, ou um trio-elétrico beira-mar. Todas as coisas mais malucas (de boas) que eu já fiz na vida foram no verão. Até o que antes costumava ser chão-firme e hoje não passa de lembrança irritante, tem pra si um espaço no meu "armário de memórias de verão". Verão é sair correndo, só porque deu vontade, na grama, areia ou asfalto quente. É não ter medo da prova de amanhã, nem da matéria de logo mais. Sabe "existir"? Plenamente, morrendo de calor, empolgada com mil coisas ao mesmo tempo e sorrindo muito mais do que chorando? Eu chamo isso de verão. E é claro que os anos novos todos começam bem no meio de um verão! Um desejo, então: que o próximo, o ímpar, o ano onde eu "juro solenemente manter o que (e os quems) eu amo mais próximos, e ser mais forte, e mais bem resolvida", comece, seja feito, repleto & forrado de verões. E, se não for possível que se constitua só disso aí, que os amores eternos da primavera percam menos pétalas. E que o ventos gelados, de aviso do outono sejam mais sutis, porém claros e objetivos. Também tem os sacríficos penosos do inverno - que eles sejam menos lindos, e mais fáceis de suportar.

Então, chega. Porque já tem vida o suficiente nos dramas que a gente cria, faz e desfaz. E drama o bastante na vida que a gente leva, puxa e empurra. Já pensou inflar tudo isso e elevar banalidades ao direito de narrativas? Já pensou descrever dia-a-dia e tudo o que de mais infantil fazemos por aí em capítulos didáticos de novela? Já pensou tentar justificar perfeitamente todos os nossos erros, assumindo zero culpa e zero responsabilidade? (...) O mundo, acredite, gira em torno do Sol, em nome das estações e sob as leis da gravidade. Nada mais, nada menos.

Prometo uma retrospectiva mais séria e menos subliminar antes de 2013!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Meus traumas são eles mesmos."

- É que ela tá em uma fase onde tudo que importa é o sarcasmo, o sorvete, a falta de perspectiva e os Black Keys.

- Não é nada disso não, cara. Ela não tá em fase nenhuma e esse é o problema. Ela odeia priorizar. Descobriu isso agora, no auge sangrento dos seus vinte anos. Acha complicado, vulgar e primitivo. E não só pessoas, mas conclusões, momentos e ações também. Se ela estivesse em uma fase, seria a fase das prioridades zero.

- É claro que ela tá em uma fase! Não estar simplesmente não faria sentido nenhum. Olha só o tanto de descrédito que você impõem à ela quando diz que não está em uma fase! Veja bem! Tudo que ela assumiu, carregou e maturou nas costas teria sido em vão, agregando nada e machucando por machucar. As dúvidas universitárias, os erros dos outros, as distâncias impostas, a falta de apego, a agressividade da vida adulta, as sutis traições, as gigantescas burradas, as noites de sexo, as noites sem Guilherme. Tudo isso, somado, tensionado e multiplicado, seria igual a "zero teoria", "zero empatia", "zero lição de vida". É quase ultrajante, sabe?

- Sabia que você ia adotar esse viés, brother. É que ela não pensa assim. Não é sobre "se construir", a vida, pra ela. Tem experiências que marcam, é verdade. Tem traumas, lugares e gente que sempre vão significar alguma coisa ou muito boa, ou muito ruim. Mas é porque todo mundo é assim! É o velho Mundo Trauma, do velho Foucault. Fora isso, é só fluir. Quer um exemplo? Ontem a noite. Se tudo o que anda acontecendo fosse parte priorizada e, como tal, eternamente integrante do sistema dela, ontem a noite teria sido impossível - um sonho, um idealismo bêbado de um subconsciente cansado - no máximo!

- Ontem a noite foi sobre sarcasmo, cara. E falta de perspectiva. E esse amor maldito, enorme e carnívoro que nela habita e por ela decide. Mas as prioridades tão lá... A fase das prioridades tá lá! Apanhando pra caramba, sofrida e sofrível, cansada de viagens e semestres sem fim, almejando caminhos mais fáceis, dias mais prazerosos. Mas elas não secam nunca não. Elas se esticam, talvez até demais, pra atender todas as expectativas do orgulho e dos outros. Mas todo mundo precisa de prioridades.

- Confia em mim, não tem prioridade. Tem hoje, amanhã. Tem uns esqueletos no armário, uma vontade maluca de que as coisas deem certo no final. Sabe o que tem, e muito? Medo. Medo de escolher e possibilitar caminhos errados. Falta o "prioritário". Falta saber quem vale e quem deveria valer mais. Falta certeza no trabalho, na escola e no dia-a-dia. Nada importa menos, mais ou "nada". Ontem? Porra, ontem ela passou o dia com o estomago estrangulado e a noite com o eterno-namorado. Ontem ela achou que ia perder, pra sempre, o caráter, se baixasse a guarda pros monstros-de-novela de todo santo dia. Ontem ela sacudiu um diabo, pra dormir com um ponto de interrogação. Ontem ela escolheu, esqueceu, escolheu esquecer & dormir com ele - não porque ela finalmente "priorizou". Foi porque a onda bateu, o mundo cantou. Não tem fase, e se tiver sorvete, sarcasmo e Black Keys, muito bem. Mas fase, fase não tem não. Tem hoje, e tem amanhã.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

1. Lealdade: qualidade, ação ou procedimento de quem é leal. Leal é sincero, franco e honesto. Fiel aos seus compromissos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eventually...

Faz tempo. E faz falta. Tem dias de sol que uma palavra te empurra pra chuva. E tem dias de chuva que baixa a guarda, se permite sorrir e sente o sol esquentando de dentro pra fora. É uma bagunça. E dessas, pra bem ou pra mal, sem definição. Já teve!... definição. E ela durou anos, simbolica e socialmente. Era um lance meio épico, parecia ter saído do melhor dentre os contos (ainda) não escritos de amor. Até que veio uma explosão atômica, sem dó, pra realinhar todas as moléculas, bagunçando o mais bem definido dos sentimentos, o mais inalterável entre os "status de relacionamento".

Sua mãe até tentou avisar que, se um dia isso acabasse, você iria ficar a mercê de nada além de uma adolescência inteira de memórias. Era verdade. Foi exatamente assim. E demorou tanto pros dois entenderem que "essas coisas acontecem". Que bombas nucleares explodem, as vezes, bem na nossa cabeça - em cima de tudo aquilo que a gente considerava básico e inalterável. E que não existe órgão mais confuso e melancólico que o coração. Foi... uma merda, com o perdão da palavra. Dias na cama, e quando não na cama, querendo estar nela. Doía de dentro pra fora e de fora pra dentro. Toda referência, direcionada ou sem intenção, fazia o estômago vacilar. O quarto e os amigos passaram por uma espécie de reforma: fotos, lembranças, músicas e algumas palavras se tornaram proibidas. Os presentes e itens de forte associação foram pra um baú (literal). E a rotina, coitada, virou fumaça e destroços. 

Passaram o quê, seis meses? Até que eles voltaram a conversar. Os primeiros (re)contatos foram acidentais, limitados e frios. A vontade, a unica vontade - a unica - era de correr, pular no colo, chorar, beijar e gritar que "Eu te amo, eu só te amo. Pra sempre, desde sempre! Te amar é tudo que eu sou, e é tudo o que eu sei fazer." Mas ficaram só no "Oi, tudo bem?" mesmo, evitando cruzar os olhos e passar mais de dois minutos no mesmo ambiente. Até que começou a ficar difícil fingir que tava tudo bem - ou que, um dia, voltaria a ficar. Até que o telefone voltou a tocar na madrugada, aquele toque especial, deixando o rosto quente e as mão trêmulas. Até que... ele apareceu sem ser convidado e eles se beijaram na chuva, se trancaram no quarto. Até que o 'óbvio' voltou a ser 'inevitável'. Mas... e agora? Agora o quê?

(...) 


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Despedida de [um] verão

Quando você, apesar de toda a situação horrível que eu criei, veio pedir pra conversar esses dias, eu descobri umas coisas... Você olha pra mim e realmente me vê. Mesmo que à sua maneira - toda distorcida, mimada (perdão), e paranoica. E eu gosto disso. Eu gosto dos seus olhos, não só porque eles são absurdamente lindos e caramelos... Eles são sinceros. Você olha pra mim e, com um olhar, me diz tudo o que tá sentindo. E me diz mais: me diz o que espera que eu sinta de volta. E tudo bem que isso seja meio maluco e desequilibrado, porque é sempre verdade! Você nem tenta entender mais a fundo o porquê das minhas angústias diárias... Mas não é porque é egoísta ou egocêntrica, é só porque não conseguiria entender como eu posso preferir a tristeza se você tá sempre aí, me oferecendo felicidade e uma boca rosada. É que a gente é diferente. Saiba que eu tento te odiar a cada bobagem de patricinha que você deixa escapar! Hahaha. Mas não dá. Eu acho que eu nunca conheci uma pessoa tão sincera na minha vida. Tem verdade em tudo aí: no discurso viciado, no jeito afetado de arrumar o cabelo, nesses olhos incríveis, nas esperanças bem-decididas, nos beijos rasgados, nas mãozinhas ousadas, na tragada dos cigarros cheirosos. Você fica aí tentando se padronizar à imagem de todas as outras menininhas fashions, mas pode esquecer, só tem um padrão aí... e ele não se repete em nenhuma delas, eu receio. É essa verdade gritante. Você é simplesmente linda. Não porque é única, perfeita ou 'tudo que eu sempre sonhei' - mas porque você É - de verdade, ao pé do verbo - e isso é tão raro. 

Enfim, eu realmente acredito em tudo o que eu acabei de escrever (das ofensas sutis, espero que entenda). Então desculpa. Primeiro, pelo impulso violento que eu tive semana passada. Foi... muito bom, ok? Mas não tinha que ter sido. Eu sou a pessoa que mais precisa de pessoas no mundo, e, além de me sentir mal por toda aquele tempo de merda que eu te fiz ter, me prendi ao seu cheiro... e a vontade de te beijar ou, passar o tempo deitada em alguém que me quisesse por ali. Em segundo, por tudo, eu acho. Porque eu obviamente não tô no ponto. Pra nada, nem pra mim mesma, talvez nem pros meus amigos e família. Eu... eu amo uma pessoa com todo o meu coração - todo ele, sentidos e idéias, tudinho. E eu sei que vai ser muito difícil voltar a ser feliz do lado dessa pessoa. É só isso que vinha girando, vertiginosamente, na minha cabeça, daquela vez. Doia. E, na verdade, ainda dói. De um jeito que eu nunca acreditei ser possível. Eu vivia ou em pânico, ou anestesiada. E sinceramente, não sei qual dos dois é pior. Você... pousou em mim bem nessa época maluca. E eu fiz tudo errado. Então me desculpa? E promete que vai guardar toda essa sua química maluca & deliciosa pra alguém disposto a viver e morrer por ela? Babe Vamp, não é que eu não tenha gostado de você ou de nós. Acredite, eu gostei de tudo. Só que tá tudo de cabeça pra baixo aqui... e você merece alguém que te faça flutuar pelos motivos certos. 

Se, num dia desses de chuva forte, você precisar de um momento ou um abraço mais forte e menos fraternal, eu... eu não sei se eu tenho forças pra resistir. Então me procure, desde que eu só possa te fazer bem.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O bosque

Ele é pleno. Pleno em sua disformidade, incerteza e falta de padrões. Não há simetria entre os pés e os troncos das árvores. Não há cores claras, intensas ou avermelhadas manchando o chão, a copa e o aspecto das árvores. Tudo se resume e se altera entre tons de cinza e verde escuro, tons de pedra. As folhas secas desprendem-se da mãe sem charme, sem novidades… Caem mortas e incolores num solo irregular, repleto de húmus marrom. Esse é o ciclo. O sol penetra por entre os galhos mais altos e só reflete as cores que no bosque reinam, as cores comuns e auto rotativas que no bosque nasceram e no bosque vão morrer. É caos, não só chaos como do grego – espaço livre – não, é caos pela desorganização e pelo excesso de simplicidade, pela falta de regra e de necessidade da mesma. O bosque é intocável. Ele é absoluto. O bosque nasceu e vai morrer protegido. Ele não precisa de um padrão, não precisa se provar, não precisa se domar. Um bosque é pleno porque é simples, porque se encaminha pelo princípio mais básico – o do aleatório. Isso é um bosque, lindo – inexpugnável graças a seu incrível equilíbrio, sua inacreditável ordem fechada e natural de existir, de reinar sobre ele mesmo.

Eu sou um bosque, você é um bosque. Um bosque que precisa fingir, e logo acreditar, que suas árvores nasceram alinhadas, simétrica e flexíveis. Um bosque que deve negar suas cores comuns, pálidas e instintivas – pra poder brilhar em oito tons diferentes quando o sol exigir. Brilhar colorido e, se possível, real, em extremos simplesmente não naturais a um boque. Eu sou um bosque, você é um bosque... que deve negar sua existência aleatória, seu caos natural, seu princípio e anti-objetivo comum à todos os bosques. Um bosque, no entanto, que desde muita cedo teve arrancado sua proteção impenetrável. Um bosque que foi criado exposto, como se assim fosse o mais correto. Um bosque com defesas corrompidas e que nunca, em nenhuma das onze dimensões, vai poder ser pleno ou absoluto como todo bosque na origem deveria ser. Porque destruidoras foram as pequenas regras, a um ponto em que eu virei homem, você virou homem… e o bosque dentro de nós, virou ideia.

Tumblr/ Domínio Público

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Soundtrack

Luzes quebrando em micro centros, all over the floor. A fumaça leve, quase invisível, com seu cheiro específico, composta por partes iguais de gelo seco, ar condicionando-se, respiração alcoólica e suor de perfume importado. Daí a cabeça gira e os pés falseiam, só o suficiente pra saber que é hora de parar de beber for good, tirar essas mãos estranhas da sua cintura, continuar andando e, pra variar, prestar atenção em pelo menos uma das letras da discotecagem, feita com tanto carinho pelo dj. "Where's your boy tonight?" Só tem letras de merda assim aqui?, ou a vida que é uma merda? Andando um pouco rápido demais, sem tirar a mente da letra, percebe as mesmas mãos de volta na sua cintura, seguidas dos braços e dorso, pescoço e um rosto lindo, mas... "Where's your boy tonight? Where? Where's he?" Gira, bate a mão em algum lugar feito de concreto, a dor vem, afasta o desconhecido outra vez, pra logo em seguida decidir que ainda quer dançar com ele, pelo menos dançar - coisa de bêbado. Só que a música não acaba nunca. A luz quebrando às vezes atinge uma retina, ou duas pupilas e isso dói também... Ele quer dançar e mais do que dançar, dança bem, mas quem é ele? A letra da música ainda tá em todo lugar... "Where? Where? Where is your boy tonight? You know, your boy!" Quando o som parece crescer dentro do estômago, percebe que deveria ter parado antes desse ou daquele shot. Uma porcentagem dos pensamentos conclui que é confusão, que é pra tirar esse estranho de perto, sentar, e nunca mais prestar atenção nas letras depois da tequila. Outra, outra só sente o cheiro quente de sândalo e qualquer outra coisa boa, emanando do estranho, emanando do estado de espírito, bebedeira e sonoridade que a noite te deu. Mas a música não acaba nunca, e os versos continuam se repetindo sadicamente... "Where, where, where's he? Your boy" (...) No final todo mundo terminou sozinho, ninguém caiu no chão, sorriram por cordialidade, fizeram o ambiente ferver e sonharam mais um Sonho de Augusta. Foi divertido, intenso, triste e de uma decadência linda, como tem que ser. Só que a música, mesmo depois de acabar, não acaba nunca.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sobre meninas e lobas


A têmpora saltando e as veias nas mãos dilatadas. 
Sabe quando todas as suas visões, ideias e sentidos se cansam juntos de um cheiro, padrão ou estilo de vida?
Não dá pra descrever mais nada porque não é um sentimento só. Nunca foi. Talvez nem sentimento seja, só desfecho pensado.
Eu preciso de paz, mas talvez o caos seja tudo o que eu mais quero.

domingo, 30 de setembro de 2012

Sorri pra mim, vai

"ASK: O sorriso mais lindo do mundo. Pode ser foto ou descrição."

São muitos tipos de sorriso, embora sejam todos da mesma pessoa. Eu acho que amo todos. Desde o mais simples e sonolento, que não chega a mostrar os dentes e se faz muito mais pelos olhos; passando pelo aberto e atencioso, que vai reagindo de acordo com o meu; até o mais sincero e divertido, dentes branquinhos, a boca entreaberta e cabeça inclinando pra trás... Engraçada essa questão estar bem hoje na minha askbox. Eu acordei com você sorrindo atrás das minhas pálpebras. E trocaria ouro pra ter um segundo disso aqui, acordada. Aí veio a pergunta via tumblr e eu mergulhei na pasta gigantesca de fotos antigas. E lembrei o que um sorriso seu significa pra mim... Mas um sorriso bom. Sem pressão, ironia ou insegurança. Sem os nossos erros pendurados nos cantos - só sorrindo, sorrindo, sabe? Sorrindo o meu sorriso mais lindo do mundo.


"Feriado de chuva no Boqueirão", 2010. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Um textinho de amor

Troca a sua senha, Dona Victória. Porque eu não resisto a tentação de vir aqui pra bancar o Romeu em praça pública. 
Ou então não troca. Deve ser bem bobo e seus amigos devem dar risadinhas, te deixar morta de vergonha. Mas, por outro lado, é tão lindinho né?

Tá. Sem essa de bobo apaixonado. Quando eu era bem mais novo e você bem mais minha, era engraçadinho. Agora a data é outra, e o ato também. Tá frio aqui e ouvi dizer que aí também. Eu sinto a sua falta todos os dias - e é o dia todo. Se você chamar, eu viro nos pés e volto. Eu sei que você sabe disso, mas é sempre bom reafirmar. E eu também sei que eu erro muito, e constantemente...

E eu te amo. Sempre. E muito, little baby meines Herzens.

E, ah, se você me atendesse hoje (na nossa meia-noite em ponto), ia me tornar no desesperado mais feliz do mundo.

G.S.
"All the hardest, coldest people you meet were once as soft as water. And that’s the tragedy of living."
- Iain Thomas

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Dia D (de Dominic)

São 7h00. São 7h30. Você perdeu meia-hora. Perdeu meia-hora e essa meia-hora desconfigurou seu dia inteiro.

Mas tudo tem um motivo. E tudo tem consequências também. Voltemos no tempo, pra explicar primeiro o motivo:

Foi dormir tarde. Tava passando um filme do Jackie Chan, um dos melhores, e desde os nove anos filmes vintage do Jackie Chan são uma paixão verdadeira. Mas nem foi por isso. Podia ter se contrariado e ido dormir. Poupou o sono de propósito. Poupou o sono porque o domingo, lindo e ao mesmo tempo odioso, já tava acabando. Quando o domingo acaba, é triste. Pelos motivos convencionais - tipo trabalho, uma rotina de cão, faculdade e todo o resto. E pelos motivos secretos, que não vem ao caso explicar. "Então fica, domingo. Fica mais um pouco!" Esse foi o pensamento, e aí levantou só 7h30.

Agora as consequências. O café da manhã foi veloz, você nem teve tempo de abrir a gaiola e deixar a gordinha pular na sua torrada, ou bebericar seu suco. Esbarrou com a mãe saindo e foi grossa, desatenta e odiável. Daí esqueceu o Bilhete Único em cima da mesa, comprometendo todo o orçamento do dia. Sem falar que escolheu uma roupa pouco confortável, que poderia apreciar um ferro quente antes de ser vestida. Pegou o ônibus alternativo, e o tráfego de caminhões é liberado na Av. Sapopemba, tremendamente caótica nesses tempo graças a obra do Monotrilho, à partir das 8h00. Meia hora vira uma hora e meia, e você chega no metrô mais tarde, na empresa mais tarde. Saí mais tarde também, porque essa é a lei do ponto eletrônico e 'descontos' não são bem vindos nessa era de dívidas e dinheiro [sempre] insuficiente. Chega na faculdade mais tarde, com mais fome, menos paciência, intelecto e emocional. Come mais rápido, em um centro de convivência mais cheio e barulhento. Hoje você precisava daquela uma horinha de folga que antecede a primeira aula!, não porque não terminou a atividade do professor Bobão - conseguiu dar conta disso no domingo, pela primeira vez em anos! Mas é que finalmente vazou o cd da banda preferida e você queria ficar num laboratório do Delta ouvindo ele inteirinho... já que a vida é tão, mais tão boa, que o pc da empresa tá com a entrada de áudio quebrada e - agora - você só pode ler comentários e esperar mais algumas angustiantes horas antes de ouvir um álbum que esperou por três anos. Depois tem aula. Duas, ainda. E tem os 'ois', os 'tchaus'. Não é culpa de ninguém!, mas tem uns ois e tchaus que realmente podiam esquecer de vir hoje - só hoje. Aí acaba o dia, você faz mais uma viagem, gira a chave e já abre a porta de casa sem forças pra se arrastar vão a dentro. A sorte dessa entrada dramática, mesmo, é que a Dominic sempre pia lá dentro da gaiola dela - e aquele piadinho de "Oi? Mamãe?", te atraindo para o último (e salvador) contato do dia - e ele é silvestre, amarelo clarinho, tem bochechas laranjas, penas quentinhas e define o amor. Então tudo bem, né? Então tudo bem ter perdido meia-hora! Ela sempre me devolve ♥

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Final diagnosis

Estamos entrando na nova temporada de séries. Tudo (re)começa entre final de setembro e comecinho de outubro. Até que enfim, né? O que me lembra... meus oito anos de House, como foi acompanhar o series finale e como é triste saber que não recomeça mais, agora em setembro. Fiz um post bem meloso na época! Segue.

Terminei de ver agora. Chorei de Teardrop, a música de abertura que apresenta os atores, até o finalzinho dos créditos, quando aparecem as produtoras engraçadas. E teve momentos que eu tava chorando tanto, que precisava pausar e respirar fundo. Ok. Vocês vão chamar de exagero... Eu também, na verdade. A real é que eu atribuo muito sentido pra séries e livros, filmes e todas essas outras coisas fictícias. Além disso, essa é a minha série favorita de verdade, de coração. Além disso também, as coisas não deram certo com a tradução, as coisas não tão dando certo aqui em casa, as coisas simplesmente... pararam de dar certo, e hoje eu tô mais sensibilizada. Enfim. O episódio foi forte, interessante. Não foi o melhor, dizer isso seria exagero - eu consigo pensar em uma pancada de episódios que eu amo e considero melhores antes desse - especialmente, haha, porque essa mágoa por ser o "último" não girava em torno deles! Não, mas sério, foi um grande episódio... complexo, trágico, nauseante e ao mesmo tempo lindo - do jeito que precisava ser, do jeito da série toda de ser. Foi bonito ver o egoísmo do doutor se mutando no maior gesto altruísta do mundo e, ainda sim, egoísta! Hahaha, difícil explicar, nem quero! Seria só me maltratar tentar colocar em palavras, aqui e agora, o quanto eu acho esse personagem brilhante, nesse ou em qualquer outro episódio... seria só doloroso. Tiveram pontos tristes, dignos do choro compulsivo de alguém que acompanhou as oito temporadas, okay. Outros felizes, de encher o coração de amor mesmo, igualmente emocionantes. Mas cara... o meu choro desconsolado, da abertura ao fechamento, eu confesso, foi 95% baseado no fato de que esse era O final de uma trama que mudou a minha vida. Que me acompanhou por anos. Que me divertiu, entreteu, ensinou, completou, ajudou, consolou - ou me deixou puta, louca de ira e tristeza, desacreditada do mundo e das pessoas - igual as coisas que a gente ama normalmente tendem a fazer. Eu amei tanto as minhas 178 horas no Princenton-Plainsboro. Eu amei tanto as equipes, as mudanças, as constantes, os casos, e as soluções. E as personalidades criados!, a forma humana, dantesca e genial como elas se cruzavam e estapeavam a gente de realidade, mesmo sendo fictícias. Eu... amei tanto a ideia de passar seis meses por ano, toda a segunda-feira, dependendo de um episódio novo - e dependendo pra sempre! Mas a segunda-feira 21 de maio chegou rápido e... levou embora tudo isso. Então sério: Eu odeio House MD por ter acabado. Mas eu amo... eu amo, muito & muito mais, por ter existido. Obrigada. Obrigada Fox, David Shore, Hugh Laurie... Obrigada! I regret nothing. E desafio qualquer série a superar, no meu coração e na crítica, o poder dessa.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O maior sono do mundo? Tá pago.

"Não, não, não. Sem essa de dizer que não me ama mais, bebê."

Ontem a nossa conversa boba (a mais boba e cor-de-rosa do mundo) foi sobre isso. Sabe quando as carências comutam e as coisas começam a ficar "engraçadas, se não fossem trágicas"? Pois é. É quase um eclipse, um eclipse de precisar dele e esperar que ele precise de mim também, assim, na mesma madrugada, com a mesma intensidade. E aí a gente tenta manter o tom sóbrio e a razão, mas só consegue rir baixinho de tudo & qualquer coisa, pensando despropositadamente na boca um do outro, assim, via telefone mesmo.

Umas sms alteradas, mas nunca [mais] bêbadas foram sendo trocadas, até que eu fui convencida a chegar em casa, me enrolar num pijama antigo e pegar o telefone. Ligo, eu ligo. Enfrento a fúria da minha mãe depois, quando já estiver tudo bem porque nós conversamos durante horas, eu me comprometo a pagar um certo terço das ligações internacionais. Embora você seja o cheio da grana, eu ainda gosto de fingir que sou a justa. Só que "atende logo", porque quando chama 4 ou 5 vezes, eu já penso em todas as anglo-saxãs que poderiam (e deveriam, só que não) estar aí enroladas nas suas cobertadas e o meu estômago fica doido!

Questionou todo o meu dia, sem direito merecido, mas com todo o direito conquistado... Dei as evasivas de sempre e lancei uma nova, pra deixar sua âncora suspirando aí do outro lado. "Ei, você não tá aqui, lembra? Isso muda tudo quanto ao que eu posso e devo fazer, e você sabe." Aí quis voltar a brincar, porque é verdade: a gente se precisava leve, bobo e cheio das risadinhas, hoje. Ficou falando que não acreditava mais em nada do que eu, às vezes, irada e machucada, gritava por aí. Que eu posso tentar, mas simplesmente não tenho mais como amar alguém como amo ele. Folga, mas muita, muita folga mesmo. E tava rindo!, baixinho, morto de preguiça e sono privado, mas todo sagaz, ainda sim, e risonho... só pra me lembrar de como a voz rouca e as risadinhas de contentamento vem fácil, descaradas e doces, no meio das madrugadas de quinta - só pra me mostrar como elas ainda me derrubam, me fazem derreter em cima do meu próprio travesseiro. 

Bom, agradeço ao leitor, mas é só. É só um relato. Nada pra ser extraído, disso aqui. Nenhuma frase mágica que gere sentido pra toda a descrição melada acima e compense o post, nada, nadica de! É só isso. Tem sido isso desde 2007. A bagunça - sem fim - que raramente nos presenteia com o tal do eclipse e deixa as âncoras se cruzarem quentinhas durante três horas e quarenta e dois minutos de, humph, telefone. (...) Muito, mas muito sono mesmo, hoje. Só que ele tá pago, né!


domingo, 9 de setembro de 2012

Segunda-feira sempre volta

A dor de cabeça e o vento quente. Quando cai a noite, o vento tende a esfriar. Mas dentro de casa continua um inferno.
Pingou sangue dos dedos e do nariz, hoje. Quem consegue se cortar fazendo check-in? Já as veias subdesenvolvidas do sistema respiratório, não aguentam a falta de chuva e não entendem nada sobre despressurização.
O calor. Não faz sentido nenhum passar calor no inverno. Foi por isso que o encontro com o banco vazio, beira-mar, em uma cidade bem ao sul de casa, esperando o vendo gelado soprar as ideias, foi o escape do feriado.
Mas eu odeio essa história de escape. Escapar de quê? Pra quê? Pra onde...? O feriado sempre acaba. E, não que eu tenha sido especialmente feliz neste, mas até a tal da contemplação do vazio ficou mais bonita em Floripa. Só que sempre acaba... E a gente volta pro metrô, para os narizes sangrando, para a rotina sufocante de relações vazias, pra existência limitada e as vontades rogadas. A gente sempre foge pro sul, alguns fogem pra Irlanda. Alguém sempre volta, alguém sempre fica. E alguém sempre volta a ficar sozinho no escuro, no frio, no Sul, Sudeste, calor, beira-mar ou metrô. Sempre acaba assim. Sempre.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"Her love for him is not something that can be changed— it’s physics, and emotion: It’s the exact weight of radium. It is vast and it is exact. It is tender and infinite and inexhaustible. Her love for him is a fact. Her love for him is a brutal fact about the world."

terça-feira, 4 de setembro de 2012

(auto)Debate

Ontem, 3, aconteceu o segundo debate entre os candidatos a prefeito da cidade de São Paulo. Foi mediado e transmitido pela Folha, em parceria com a RedeTV. Sou viciada em debates já tem um tempinho. E não é só porque é divertido ver os caras trocando farpas (embora seja, e muito), mas é o melhor (senão único) jeito de conhecer os candidatos, né? Campanha eleitoral é composta em 20% de ataques aos concorrentes, sem direito de resposta, com acusações que, mesmo que verídicas, vem distorcidas e contextualizadas a favor de quem critica. Os outros 80% são propaganda, que 80% das vezes também é distorcida, ou só enganosa mesmo. Enfim. Matei muitas curiosidades ontem. Sou metida a fazer micro análises de todo mundo e, no caso dos candidatos, preciso & tenho tentado fazer isso desesperadamente, 24 horas por dia. Admito estar em pânico, hahaha. Eu não sei como usar meu voto a favor da minha cidade, ainda. E não sei se vou conseguir maturar essa decisão a tempo. Porque tá muito, muito difícil mesmo votar em 2012, gente. O que uns tem de despreparo, outros tem de irrelevância. Os maiores, são os mais mal-intencionados. E os menores, ou são leigos, ou são só... pequenos demais pra brincar. 

Vou começar falando do Paulinho da Força (PDT), porque ele foi o cara que mais me assustou ontem a noite. Nunca tive amores perdidos pelo candidato, ou pelo seu partido duvidosíssimo. Mas rolava uma espécie de "respeito afastado", já que eu conheço a história bem por cima mesmo. Ontem ele coronalizou geral e, sabe, é nessas horas que a gente agradece por ter tido a paciência de ir dormir um pouco mais tarde em prol do debate. Sim, ele "coronalizou", gente. Bancou o vargista, defendeu o cara sem nenhum pudor e criticou Carlos Gianazzi & partido (PSOL) baseado no fato de que "eles são tão pequenos e chatos na câmera, que ninguém do meu partido para pra prestar atenção, porque a gente tem coisa mais importante pra fazer, e eles só tem um representante na câmara estadual, que só serve pra encher o saco". Aaaah, mas é muito bom saber, querido Paulinho! Acho engraçado um cara que foi líder dos sindicalistas por tanto tempo, usar humilhação como base de argumento quando se dirige a uma espécie de esquerda menor (o PSOL). Que tipo de índole é essa?! Que tipo de proposta gestora esse homem tem pra São Paulo, a maior e mais importante cidade do país (guardados as proporções e separatismos tucanos)? Além de corrupto, pipoqueiro e metido a chefão, o tal do Paulinho é um coronelzinho, com bases partidárias seriamente Vargistas, e envolvidas tanto nos escândalos centro-esquerda, como centro-direita do país. Se fosse só isso, mas o camarada não tem preparo nenhum pra discutir as questões mais pertinentes da cidade! Quando perguntando sobre corrupção, as máfias paulistanas e o envolvimento destas como o seu partido (se não em engano, pelo próprio Gianazzi), não conseguiu responder, gaguejou, disse que o importante era "discutir as questões da cidade" e voltou pro seu texto decoradinho, que, convenhamos, falta em criatividade, em energia, e em todo o resto também.

O segundo a chamar minha atenção em um jeito extremamente negativo, infelizmente, foi o Fernando Haddad (PT). Não, ele não é um Paulinho da vida. O cara é preparado - podem se apegar aos defeitos do ENEM e as "injustiças raciais" das cotas - como ministro, foi um grande profissional e gestor. Tem o discurso responsável e prático, e não é leigo, nem bobo. Resumindo, não vejo nada de errado na pessoa Haddad. Também não sou expert em política, que fique claro; meu interesse é proporcional à minha vontade de ver a cidade, estado e país funcionando, harmônica & socialmente. Porque sim, eu não ligo pra economia decolando, ou o Pão-de-açúcar virando um gigante na propaganda de whiskey. Eu quero, e sempre tentarei votar, a favor do bem-estar social. É por isso que o PT sempre estará a frente do PSDB da minha intenção de voto; é por isso que eu desprezo o segundo partido com um fanatismo quase futebolístico. Mas o probleminha-Haddad, pra mim, surge bem aí. O cara é um Filho de Lula e frisa isso, em to-das as suas respostas, de maneira quase católica. Pode ser que seja a proposta do seu marketeiro - colocar o candidato sempre a sombra onipotente do Presidente do Povo, de maneira que a gente nem veja ele direito - só o fato de que ele é o candidato do governo. Isso... irrita. Até pra quem apóia (guardados os fanatismos partidários) o Governo Federal, como eu. Eu quero ver o Haddad "futuro prefeito de São Paulo" falando, e não o "ex-ministro amado pela Dilma & pelo Lula". Fora isso, a outra última coisa que me deixou com o coração partido essa noite, foi a resposta do Haddad para a pergunta da Soninha (a mais genial da noite, assim como muita das coisas que a Soninha, inspiradíssima, disse ontem): "E o Maluf, Haddad?" Ele ficou cor-de-beterraba, e nem foi por despreparo, já que não existe preparo no mundo que possibilite um candidato a justificar uma aliança com o PP, né. No final, terminou falando que "quem deve justificar o apoio, é quem apóia, e não o apoiado". Muito, muito... triste.

Tá, deixa eu falar do José Serra (PSDB) antes que eu exploda aqui, vai. O que o cara não tem de caráter,  transborda em experiência. De quantos zilhões de debates o Serrinha já participou?! O coitado do Chalita tinha todos os argumentos e tava tentando fortemente meter a lenha na última [meia]gestão tucana, quanto a questão das escolas de tempo integral; falhou - parece que o Serra tem uma barreira invisível, protegendo-o de toda a sua "falta de realizações" com uma capacidade assustadora de discutir e argumentar, mesmo sem argumentos ou razão. Depois o Gianazzi, sobre a Saúde paulistana e a tal da entrega de remédio em domicílios também fez críticas primorosas... mas o cara tem um discurso tão idiossincrásico, tão "ei, eleitor, pelo menos você sabe quem eu sou, e esse outro cara não", que fica difícil brincar. Ele é tipo um vizinho que te convida pra jogar video-game, perde, e bota a culpa no controle com defeito, ou diz que não queria ganhar "porque não tava valendo nada mesmo". O Gianazzi detonou a pergunta mal-feita do tucano, sobre o remédio domiciliar, apontou com muita competência todo o descaso da gestão Kassab, que ele próprio "criou" - tudo o que o Serra disse na réplica, foi "Bom, em primeiro lugar, eu não "criei" a segunda gestão Kassab, ele se reelegeu." - Tipo, "culpa de vocês eleitores, não minha, otários". Depois mandou um "Ah, que pena, eu esperava uma proposta do candidato Gianazzi pra que nós pudéssemos discutir" - mas ele gastou todo o tempo apontando os erros do meu partido nojento e sua privataria desmiolada que ferrou com a saúde.

Gente, do Celso Russomano (PRB - É O PARTIDO DA IGREJA UNIVERSAL SIM, SEU ESCROTO), eu não tenho muito a acrescentar. O cara é mesmo um sensacionalista dos chorões, como algum jornalista colocou brilhantemente esses dias (não lembro quem, nem quando). Faz biquinho de passarinho, afina a voz, também não responde nada, e só frisa, cheio de piedade, que a "população precisa de mais qualidade, eu ando pelas ruas e eu vejo isso: nós precisamos amar nossas pessoas, e como prefeito, eu farei isso incondicionalmente". Ba ba qui ce. É o cara mais sujo, quase ofende seus concorrentes por estar presente nos debates, e pronto.

Soninha e Levy me surpreenderam também, mas não pra mal. Quer dizer, na medida do possível. A Soninha sabe discutir, colocou brilhantemente suas posições em relação ao fanatismo partidário, em relação a sub-prefeitura que ela assumiu na gestão Kassab, que ela tanto critica (ela e o mundo, né gente) - pra mim foi o ponto alto do debate, sinceramente, eu olhei pra pequena ex-boleira e pensei "eu me sentiria bem representada por essas opiniões na prefeitura". A pena, é que tudo o que sabemos dela, são as opiniões. Falta... sei lá, falta muita coisa aí. O Levy é um grande cara também, tem pinta de governante, pena que exala "Estado Mínimo" e "Soluções Bancárias" pelos bigodes, hahaha. É o tipo de "chefe gente boa que, mesmo só pensando em dinheiro, é um cara legal e não comete injustiças". Longe de mim com os grande empresários, mas o Levy é preparado, intelectualmente, e o Paulinho me perturbou tanto por não ser nem um pouquinho, que me apego aos que são, haha. 

Eu gosto do PSOL, e achei o Gianazzi um cara bacana. É um partido social, que não vai somar mais de 2% de intenção de voto nunca, porque a propaganda é limitada e as pessoas curtem mesmo é eleger um Homem Olimpiano. Por último, e quase menos importante mesmo, tem o Chalita. Ele é bem articulado, ele não é um idiota completo, ele tem propostas boas e mesmo com aquela cara de bobo e aquela voz de dormir, não é uma perdição total. Mas, AH, ele é o do PMDB, né? Ok, então não.


E vocês, votam em quem e porquê? Hahaha. Já vou avisando pra quem ainda não sabe com certeza, que pensar vai doer! Mas defender um país não é só ir pra guerra matar uns nazistas! Votar funciona gente, tenhamos fé.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Diário da indiferença

Hoje o frio venceu e o exagero, um velho amigo, recuou. Mas não vai fazer drama. Não vai chorar assim, ainda tão longe de casa. É que às vezes... a biologia feminina conspira, o tempo fecha e todo mundo esquece junto que, além do cinismo, é só sensível. A prática em ignorar a família e os idealismos românticos inspiram uma força moderna, pró-praticidades. A altura, a preferência por cores neutras e comportamentos modestos, também. Só que as vezes, é inevitável quebrar a cara. As vezes sente frio e falta. As vezes quer só pra ela esse monte de sorriso que vê na vitrine. Mas hoje é sem exagero. É até sem verdade. Perder amores imensos a ensinou uma coisa: mesmo que seja mentirosa, a indiferença é sempre uma boa aliada. E o erro foi dela. Os últimos tem sido... Então é só respirar, pensar numas ironias pra dizer. É só fechar os olhos e tentar salvar as coisas boas. É só assumir a culpa, se comportar, se domar. É só...

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Tulipas

Você deita e bate junto com o seu coração. Não é sentimentalismo, é uma descrição biológica, uma reação química. Deita de lado, com os sentidos oscilantes, arrebatada. Fazia tempo que não acordava tão cedo, e a manhã é cheia de truques. Ainda tá tudo quieto, a luz ainda vem batendo de encontro as janelas da casa, ainda tá frio, e você tá escutando "Pala" já a uns três dias seguidos, que agora tá tocando ao fundo. Aí chegam elas, rosas e úmidas, umas grandes, outras menores... Frias, com o caule manchado de terra, amadas instantaneamente. Você já ganhou iguais várias vezes, já amou, já odiou, ignorou ou sofreu. Dessa vez... foi só maior, e mais complicado. Um pedaço de papel pardo, rasgado de uma folha maior, com uma única frase. "Soulmates never die". Foi um soco, um tapa. Serotonina, duas ou três lágrimas errantes, os pássaros lá fora. Involuntário, foi o sorriso. A música, foi trilha. Deitou e sentiu da forma mais intensa do mundo o coração batendo em uníssono com o resto do corpo. Sem pensar, sem olhar, até sem ver - só sentiu. Não é romantismo, é precisa descrição. Deu tontura, ficou frágil, primeiro assustada, mas depois passou. Só tombou, de lado, cedendo, observando a luz. Incompleta, mas plena... plena. A respiração de Julieta foi deixando o tórax cada vez mais relaxado. Pros ouvidos e têmporas, veio o som que já não cabia mais no peito sozinho. Elas deitaram com você. São cor-de-rosa, vieram de uma loja logo ali, mas vieram de tão longe também... É a sua flor preferida. E agora seus olhos já estão tão molhados quanto as suas pétalas frescas. (...) Eu sei. Eu sei que é difícil. Que é horrível, às vezes. Eu sei. Eu não finjo que eu esqueci. Mas é maior. É maior...

sábado, 11 de agosto de 2012

Não namore uma garota que lê

http://asviolentasbright.blogspot.com.br/2012/03/namore-um-cara-que-le.html

Saia com uma garota que não lê. Faça tisso, porque nada é pior do que uma garota que lê. Faça, eu digo, porque uma vida inteira no purgatório é melhor do que meia vida no paraíso, e meia no inferno. Faça, porque a garota que lê possui o vocabulário que pode descrever esse descontentamento de uma vida insatisfeita, um vocabulário que analisa a beleza inata do mundo e a converte em uma necessidade alcançável em vez de uma maravilha alienada. Uma garota que lê faz alarde de um vocabulário que pode identificar a capciosa e desalmada retórica de quem não pode amá-la e a inarticulada causada pelo desespero de quem a ama muito. Um vocabulário, maldito seja, que faz de mim um enganador vazio, um truque barato. Faça, porque a garota que lê, entende a semântica da coisa toda. A literatura tem a ensinado que os momentos de ternura chegam em intervalos esporádicos, mas reconhecíveis. Uma garota que lê sabe que a vida não é planar, ela sabe e exige, que o fluxo da vida venha em uma corrente de decepção. Uma garota que leu sobre as regras de sintaxe, conhece as pausas irregulares – a vacilação e a respiração – que acompanha a mentira. Sabe qual é a diferença entre um episódio de raiva isolado e os hábitos de alguém que se agarra com força a alguém cujo amargo cinismo continuará, sem razão e sem propósito, depois que ela tenha empacotado suas coisas e pronunciado um inseguro adeus. E ela decidiu que eu sou uma elipse e não uma etapa, e, por isso, segue seu caminho. A sintaxe a permitiu que conhecesse o ritmo e a cadência de uma vida bem vivida. Namore uma garota que não lê, porque uma garota que lê sabe a importância de uma trama. Ela pode traçar as demarcações de um prólogo e os cumes afiados de um clímax. Ela sente em sua pele. Uma garota que lê será paciente caso haja pausas e tentará acelerar o desfecho. Mas de todas as coisas, a garota que lê conhece o inevitável significado de um final. E sente-se cômoda com ele. Ela tem se despedido de milhares de heróis com apenas uma pontada de tristeza. Não namore uma garota que lê porque garotas que leem são contadoras de história. Você com Joyce, você com o Nabokov, você com Woolf. Você na biblioteca, na plataforma de metrô, você em um café de esquina, você na janela do quarto. Você, que tem feito minha vida tão difícil. A garota que lê tornou-se uma espectadora de sua vida e cheia de significado. Ela insiste que suas narrativas são ricas, ela apóia seu elenco colorido e sua tipologia. Você, a garota que lê, faz-me querer ser tudo que eu não sou. Mas eu sou fraco e vou deixá-la, porque você tem sonhado, propriamente, com alguém que é melhor do que eu. Você não vai aceitar menos do que já tivemos, e quanto ao "mais", eu não sei se posso te dar. Você vai aceitar nada menos que paixão, e perfeição, e uma vida digna de ser narrada. Por isso, vou deixá-la, garota que lê. Pegue o próximo trem que a levará para o Sul e leve consigo um Hemingway. Eu te... te... Bom, você já sabe, já leu mil vezes essa frase torta, insuficiente e cambaleante feita de três palavras, que, verdadeiras ou não, sozinhas já não tem mais força para mudar o seu enredo.

Guilherme S.
para o blog da Vv.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

"Mas tudo bem... tá tudo bem, meu bem!"

Dia 9 chegou rápido demais. Eu não sei que roupa vestir, ou que perfume usar... Dormi mal a semana toda, achei que tivesse haver com o excesso de trabalho que eu assumi, mas eu poderia ter parado mais cedo e ido deitar um pouco antes. Na real, é a ansiedade me consumindo. Não a ansiedade boa, mas a ansiedade velada, que antecede a sua... viagem. Eu sei que já tem 8 meses que você não é mais meu e eu não sou mais sua, mas isso é uma mentira deslavada e nós podemos tentar, mas não enganamos ninguém. Agora chegou o dia, e você me convidou pra um café, antes da minha aula, e antes do seu voo... Me convidou pra uma despedida, e eu até tentei pensar em uma resposta mal-educada na época, mas deve fazer sentido, ir dar tchau - nós somos quase experts nisso. Eu lembro de quando você cantou Beatles no aeroporto e prometeu me mandar, todo dia, "todo o seu amor". Lembro daquele dia aqui em casa, quando nós sentamos de costas um para o outro e choramos baixinho, ignorando o erro que estávamos por cometer. Eu queria fugir disso, de mais uma dessas... Mas no fundo, quase preciso. É complicado, sempre foi, sempre vai ser. Mas eu preciso ir olhar nos seus olhos azuis uma última vez, falar bobagens pra te arrancar sorrisos e te pedir cautela, paciência e juízo. Preciso que você segure meu rosto entre as mãos quentinhas, e que jure me amar pra sempre mesmo de tão longe. Preciso sentir sua respiração quebrando no meu pescoço, enquanto recuso me despendurar do seu abraço enorme, do seu cheiro amadeirado de almíscar e sândalo. Você vai ficar oito meses fora, parece estúpido ir se despedir de alguém que, por escolha, eu me mantive (ou tentei) afastada nos últimos oito meses. Mas nunca achei meu coração muito esperto mesmo, e Deus sabe que eu morri de saudades, mesmo fugindo das minhas promessas choronas e indo te ver quase que mensalmente, mesmo sabendo que você estava a um metrô de distância. Nem sei se o que está me deixando a garganta seca, agora, são as saudades-monstras em potencial. Com as saudades, eu lido, aprendi a lidar. O que me mata, é  a possibilidade de te perder de vez... Mas... tudo bem. Você tem que ir - já sei que vai transbordar de emoção e dizer que, "se você pedir, eu fico, juro que fico" - mas não é assim, nunca foi assim! Nosso amor vence essas coisas, cambaleia, se parte de formas que parecem simplesmente demais, mas eu te prometo que ele vence! Agora preciso ir esfriar a cabeça, pensar em uma forma graciosa de te contar que, em março, muito provavelmente seja a minha vez de ir conhecer outros mares, e que, nossos meses somados, dão um ano e três meses de afastamento... Também preciso pendurar meu pingente de coração ("O Seu coração é o Meu coração e juntos eles batem, em unissom, como o Um Só que de fato são.") e prender o cabelo daquele jeito que você gosta tanto. É, eu preciso ser a sua menina uma última vez... Mas só por um tempo, só por um tempinho, Sr. Âncora. Depois fica tudo bem, sempre fica.



sábado, 4 de agosto de 2012

Heartstrings

"Loving a band with all your heart is something you only understand when it happens to you. On the surface, others can see it as a petty obsession, but they'll just never know the feeling of putting so much faith into a few people on the other side of the world. It's hard to explain it to them, the listening to song after song on repeat, the waits for new albums, the excitement and surreal sensation when you finally see them live. They don't seem to understand why the lyrics booklets give you a sense of comfort, or why you paste photos of them all over your bedroom walls. And they can't understand why one band could matter to you so much. And you think to yourself 'Because they saved my life.' But you say nothing, they wouldn't understand."

You're my Muse ♥ 2009, Vic.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Aos ratinhos de biblioteca

Não consigo pensar em um dia mais próprio pra fazer um bem-bolado de amor & citações, aqui, com os meus escritores favoritos! Hoje é o dia do escritor e seria presunção demais me colocar entre os mitos, portanto em vez de descrever minha relação com a escrita, vou é falar da relação com os escritores. O timing também foi perfeito: minhas férias (inclusive de trabalho) estão sendo feitas de compulsiva e deliciosa leitura, e eu sou mesmo uma dessas chatas que sempre tem um livro na bolsa, um outro na mente e centenas na estante. Antes de começar, que fique claro que a ordem será, de certa forma, meramente organizacional. E vai faltar espaço pra muitos dos gênios que eu admiro (apesar dessa ridiculisse de tamanho que o post ficou).

Chuck Palahniuk
"Nada em mim é original. Eu sou o esforço combinado de tudo o que já conheci." 

Ele é só o dono de Clube da Luta e Asfixia, os livros que me ajudaram (e continuam ajudando) a construir essa filosofia humana dantesca, pessimista e ordinária que eu gosto tanto de destilar. A literatura auto-destrutiva, urbana e psico-caótica dele me faz sorrir desde os 14 anos, quando eu cruzei com a adaptação cinematográfica e subversiva de Fight Club e me apaixonei por esse jeito crânio de filosofar, e escrever. Porque sério: existe jeito melhor de encarar a sociedade, em toda a sua decadência, do que de baixo para cima? Aceitando as condições e descrevendo as relações, assim, cheio de preocupações espertas que vão além da estética da coisa toda? Existe não, Chuck.


Virgínia Woolf
"Algumas pessoas procuram padres; outras a poesia; eu, os meus amigos."

Machado de Assis

"Eu sinto a nostalgia da imoralidade."
Desse camarada não é preciso falar muito, né? Ele é o maior escritor brasileiro e, sinceramente, talvez do mundo. Eu tô tentando montar a obra completa aqui em casa desde os 16 anos, quando a escola me presenteou (call me geek) com Dom Casmurro. Tá difícil e caro, mas valendo todo o esforço e cada centavo. As linhas todas desse gênio me enchem de fascinação, hahaha, sério, sério e muito piegas, mas muito sério mesmo! Mas o que mais me cativa, é o que diz respeito à escrita do mestre, propriamente dita, como processo - montar frases e sentidos, eloquer ideias e relações, organizar e nomear capítulos - ele é a definição de talento e beleza, de precisão e... porra, ele sabe como montar uma frase esteticamente incrível, liricamente cheia de significado! O cara é bão mermo, e eu amo tan-to o meu Dom Casmurro.

Lorde Byron
"Amo, não menos o homem, mas mais a natureza."

George Orwell
"Podiam desnudar, nos mínimos detalhes, tudo quanto houvesse feito, dito ou pensando; mas o imo do coração, cujo funcionamento é um mistério para o próprio indivíduo, continuava inexpugnável."
Tá, vou confessar: esse cara escreveu meu livro favorito. Chama 1984 e, sabe, eu já não acho que nenhum outro livro daqui pra frente possa superar esse favoritismo. Espero, e ao mesmo tempo não, estar enganada. Mas enfim, é um livro político, poético, sobre guerra, amor, liberdade, esperança e a perca total desta. É psicológico, do jeito que pra mim gostar tem que sempre ser, haha. É grave, e sério. É dramático, e sonhador. É o melhor livro do mundo e, bom, quem escreveu deve estar mais ou menos por aí também - entre os melhores.

Augusto dos Anjos
"Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao céu o fumo de um cigarro.
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!"

Sylvia Plath
"Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou."
Como não amar a Sylvia Plath quando se tem sentidos e sentimentos? Você acha que se entende plenamente e melhor do que ninguém, mas aí deixa um verso ou outro dessa moça cruzar seus olhos e pronto: quem te endente melhor, é ela. Não recomendo pra quem gosta de viver em uma bolha de "felicidade plena" vinte e quatro horas por dia. Fora isso, é só bonito, bonito, bonito...

John Milton
"A mente não deve ser modificada pelo tempo e pelo lugar. A mente é o seu próprio lugar, e dentro de si pode fazer um do céu um inferno, do inferno um céu."

John Keats

"No mesmo templo do deleite
A velada melancolia tem o seu santuário."
Ele é o meu poeta favorito. É, aquele que morreu jovem, apaixonado, apaixonante... Escreveu só um livro que considerou bom o suficiente, sua obra prima. Fala de estrelas, noites ermas, meninas, silêncios e a natureza. Pra quem sempre gosta de me perguntar das tatuagens, haha, o tal do Glorious pousado no meu pulso tem haver com a obra do Keats, tem haver com Bright Star (o poema mais bonito do mundo) e toda a beleza e paz que ele me transmite.

Fernando Pessoa
"Quero pra mim o espírito dessa frase, transformada a forma para casar com o que sou: viver não é necessário; o que é necessário é criar."

Truman Capote

"Quando se trata de escrever, acredite mais na tesoura do que na caneta."
Quando eu terminei de ler A Sangue Frio, decidi dar voz pra minha inquietação, largar o curso superior que parecia errado, e prestar para o curso superior que parecia tão mais certo. É um livro ótimo, essa é sua mais importante característica. Fora isso, ele mistura reportagem e literatura, ele é jornalístico e lírico, documental e emocional. Sou eu, enquanto nem eu sei quem eu sou, entendeu? Sem falar da história, a história é grande, e grandemente contada.

F. Scott Fitzgerald

"Se é que minha opinião importa, nunca é tarde demais ou, no meu caso, cedo demais para ser quem você quer ser. Não há limite de tempo. Comece quando quiser. Mude ou continue sendo a mesma pessoa. Não há regras para isso. Podemos tirar o máximo ou o mínimo proveito das coisas. Espero que você tire o máximo. Espero que veja coisas surpreendentes. Espero que sinta coisas que nunca sentiu antes. Espero que conheça pessoas com um ponto de vista diferente. Espero que tenha uma vida da qual se orgulhe. E se não se orgulhar dela, espero que encontre forças para começar tudo de novo."

Oscar Wilde
"Perversidade é um mito inventado por gente medíocre para explicar o que os outros tem de curiosamente atrativo."
É claro que O Retrato de Dorian Grey não é o melhor livro do mundo, mas é com toda a certeza o mais elegante. Eu já li umas três vezes, sempre fico sorrindo atoa, mesmo quando a trama vira e a tragédia vem à tona. É charmoso, artístico, carismático e completamente delicioso - literatura às vezes tem que ser assim - todo mundo às vezes precisa ser assim. E o Oscar Wilde foi, com todo o talento do mundo, ele foi e escreveu sobre tudo isso aí.

Ernest Hemingway

"É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos."

James Joyce

"Eu irei lhe dizer o que eu irei fazer e o que eu não irei fazer. Eu não servirei aqueles no qual não acredito mais, mesmo que se entitulem minha casa, minha cidade natal ou minha igreja: e eu tentarei me expressar [viver] de uma forma mais livre e completa possível [através da arte], usando em minha defesa as únicas armas que eu me permito usar - silêncio, exílio e habilidade."
Eu li o prólogo de Ulysses no cursinho e fiquei mais de seis meses ruminando as frases, planejando comprar o livro (que só voltou a ser reimpresso no Brasil esse ano e, na época, era mega difícil encontrar e mega caro pra adquirir), até que finalmente fiz isso, uns dias antes do primeiro vestibular: big, big mistake. Ele é gigantesco e... lembra quando eu disse que 1984 é meu livro favorito e nenhum deve superar? Esse foi o que chegou mais perto e, se eu fizesse um ranking pra livros (é muito difícil, não rola!), ele apareceria perdendo pro primeiro por pouquíssimos décimos! Nem penso em tentar explicar aqui o porquê da genialidade de Ulysses. Toda vez que eu releio (e isso acontece bem mais do que deveria), entendo de uma forma diferente, percebo um sentido ou acontecimento novo; ele é quase... mágico! Dito isso, o que mais dizer?

Albert Camus
"E no meio de um inverno eu finalmente 
aprendi que havia dentro de mim
um verão invencível."


Jack Kerouac
"E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de idéias ou nesse universo repleto de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida como ela é e não forme idéias preconcebidas de espécie alguma."
Argh, cara, eu amo esse homem. Com certeza é o escritor, enquanto ser humano, com o qual eu mais simpatizo. Um vez tentei montar um caderno de citações e tinha tanto Jack Kerouac no meio, que desisti e fiz um caderno-Kerouac, hahaha. O livro, On the Road, é lindo - não crie muitas esxpectativas, não crie expectativas nenhuma - só leia, e leia, e leia. Senta lá fora e lê, porque lindo é o que ele é, mas o que mais gosto nesse escritor, nem é a obra prima: é a forma simples e plácida como ele descreve, tão bem, as coisas que sente & o sentido das coisas todas. É livre, é folk e é inspirador. Dá vontade de tomar sol no rosto, ou carregar a câmera, pegar um chapéu e sair por aí... por aí, sabe? Pelo mundo...!

Edgar Allan Poe
"Tudo o que vemos ou perecemos
Não passa de um sonho
Dentro de um sonho."

George R. R. Martin
"Quando as neves caem e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre, mas a alcateia sobrevive."
Gente, sobre as Crônicas de Gelo e Fogo... Por favor, não esperem uma crítica arrojada, nem uma mínima descrição. Tudo que vão ganhar aqui nesse comentário, é amor e devoção de uma idiotinha completamente inserida e dependente de Westeros, as tramas e as personagens. Genial é pouco pro peso dessa obra. Cinco livros publicados, dois pra fechar a série. Tolkien e Lewis que me perdoem, mas pra mim essa é a expressão máxima de literatura-fantástica. Estou seriamente viciada!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

"You've turned your heart into a hero."

Cinco da tarde é o melhor horário do mundo, perfeito em todos os sentidos. Quando é verão, por exemplo, e você está rodeado de árvores: porque tudo fica lindo e, além de lindo, é pura filosofia! A luz começa a oscilar no céu, e as sombrar todas vão tombando uma sobre a outra em tons de laranja. O sol te observa rubro em uma diagonal quase horizontal, e te enche com o último sopro de calor do dia, cheio de harmonia e boas energias. Você já sabe como o seu dia vai terminar, já sabe o que fez e o que deixou de fazer, e, se quiser mudar alguma coisa, ainda tem a noite toda pela frente, e ter a noite toda pela frente é outra coisinha completamente linda sobre as cinco da tarde. Aprendi esses elogios às cinco da tarde já há um tempo, e quem ensinou, ensinou entre suspiros, cabeça no meu colo, olhos doados pro céu dourado, falando bem baixinho como que para não interferir na magia que ela possui. 

Não são cinco da tarde, esse horário quente e cheio de boas lembranças já passou, hoje. É verdade que essas novas já não são mais tão quentes. Quando penso em como elas costumavam ser, aí é que gelam mesmo. E quando decido não mais pensar e dar uma chance pras novas tardes que estão por vir, ameaçando esquentar outra vez, o ocaso rompe mais cedo pra me lembrar que o amor é uma flor de inverno extremamente complicada e não deve simplesmente "dar certo", assim, tão poucas estações depois... pelo menos não dá forma (unica) que eu conheço e insisto em acreditar. 

Mas se eu aprendi alguma coisa daquela vez, é que o lance do céu dourado, do dia em out e a noite em in, das árvores de sombra longa e dos pássaros correndo pra casa dormir, dificilmente tem haver com as tardes que já foram... embora nesse caso, de um jeitão bem íntimo e agora dolorido, tenham praticamente só haver com elas. No plano maior, segundo a filosofia que os olhos claros e os cabelos temporariamente alaranjados tentaram transmitir, é sobre as novas cinco da tarde, precisa ser! É sobre esperar um pouquinho e acreditar que no final de uma noite longa, ou de um pesadelo que pareça durar meses e meses, vai chegar um novo verão, um novo pôr-do-sol. Sabe aquele ditado todo místico e infantil que diz que é sempre mais escuro antes da aurora? Pois é, também é sempre mais claro antes do ocaso, e não tem nada de errado com o ocaso. Você só precisa continuar sendo... forte. And "you don't need strength to be strong".


quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dramática auto-suficiência

Te ensinam a respirar, na terapia. Faz anos que nem passo perto de um consultório, mas lembro de quase todas as coisas... Agora seria bom, eu acho. Seria bom ter algo agora. Ou seria o contrário de bom, mas tenho pensando muito nisso. Parei porque tava com medo de decepcionar minha mãe. Com treze anos decidi que não queria ser a filha estranha, triste ou meio pinel, que fazia terapia e tinha tudo pra dar errado, vivia muito mais triste do que feliz e acordava em pânico, inconsolável, pelo menos uma vez por semana. Bom, mãe, nós duas já sabemos agora que todo aquele meu "potencial" à normalidade e sucesso foi fogo-de-palha. Quanto aos sonhos escuros... eu sei que pela lei não são mais problema seu, mas eles nunca deixaram de me espreitar e, quando eu menos preciso, eles voltam. "Fecha os olhos outra vez, tampa os ouvidos e tenta ouvir a sua própria voz dizendo, de dentro pra fora: tá tudo bem, tá tudo bem... você já acordou."

Mas e a respiração... como era mesmo? Eu queria lembrar dos exercícios todos! Lembrar de como puxar o ar, quando, a garganta e o tórax já estão completamente contraídos, arfando, mas só vai entrando mais desespero. Queria lembrar, agora, de como me acalmar com o oxigênio inalado, deixando ele fluir pros olhos afogados e pra bagunça que as expressões faciais se tornaram. Ou de como ser forte, e ter foco, pra inspirar bem fundo, entre pausas longas, e com calma liberar a pressão dos punhos pálidos, fechados em x com força demais. Tinha aquela posição também, aquele jeito curioso de sentar agarrando as próprias pernas, se impondo contra o estômago dolorido, ordenando física e psicologicamente que ele pare de borbulhar medo e ácido gástrico em excesso. "O corpo é gentil demais, e quando o medo e a tristeza dominam a mente, ele resolve se maltratar pra te distrair... Mas a mente é cruel: junta os dois processos e faz tudo parecer pior. Busque raciocinar."

Não era só sobre respirar direito, é claro... Embora grande parte da coisa toda tivesse haver com isso, aqueles dias, por causa das técnicas que eu tinha de desenvolver pra me acalmar depois de acordar. Mas tinha a poesia também, o lado filosófico e charmoso, a tal da doutrina de auto-ajuda. Eu era boba e criança, mas de qualquer jeito inocente, funcionava. Acho que vou querer um pouco disso também, (re)aprender a me ajudar quando, na real, não sobrou mais ninguém pra fazer isso por mim. É, eu lembro bem disso, lembro do psicólogo me trazendo chá de camomila e sentando mais perto, dizendo que não faz sentido nenhum se martirizar e viver em luto quando as pessoas que a gente ama saem da nossa vida, de um jeito ou de outro, porque no fundo é tudo uma questão de concepção, e essa questão tende a ser bem relativa: nós só devemos "precisar" de alguém quando esse alguém existe plenamente pra nós; quando não, só precisamos de nós mesmos. Não é egoísmo ou egocentrismo, mas auto-suficiência, e ela não é perfeita e na maioria das vezes é muito triste, mas quando é só o que sobra, precisa ser ideal. Acho que naquela época eu reclamava do meu pai, e, graças a psicologia ou não, eu desenvolvi essa relação exata com ele - independência emocional. (...) "Agora você só precisa fazer isso outra vez com os seus mais novos futuros-fantasmas."


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Henry D. Thoreau e a insônia

"Todo mundo fotografando, descobrindo e se apaixonando em Manhattan... E você aí, com todo esse potencial, continua na casa dos seus pais, escorregando pra amores pequenos e lembranças modestas. Sabe, não é muito natural acordar no meio da noite assim, angustiada, invocar um alterego e tentar se doutrinar - mas no seu caso é quase urgente, porque a inquietação anda em pico esses dias, não é mesmo? Não é sobre auto-ajuda, psicologia de bar e essas reivenções televisivas não - tem pouquíssimo a ver com tudo isso, porque, na real, é sobre caminhar de encontro a algo que você sempre foi, e não que precisa 'se tornar'. Você não precisa ser a mais legal, ou a mais divertida, ou a mais inovadora... Mas precisa querer coisas maiores, almejar dias mais cheios e situações menos convencionais! E não me venha com essa de "estar contente com as simplicidades da vida", porque essa nunca foi você, minha cara... Seu lance é morder a vida - é, morder ela - agarrar pela boca e sair correndo por aí, sem parar, sem pensar. Eu sei que pode ser assustador às vezes, mas você precisa, hm, querer crescer. Chega de passar frio nos dias mais quentes do ano, ou fazer planos mentais enquanto o corpo continua trancado no quarto. Chega dessa história de se limitar porque fulana ou ciclano não acompanham seu ritmo, não partilham da sua filosofia. Vai sujar a roupa um pouco, sábado a noite, ou pode ser em uma terça-feira!, vai se sujar e, se rasgar no processo, nada dessa história de se arrepender e prometer 'nunca mais fazer isso', troca de roupa e se suje de novo! Parece que é um discurso direcionado a vida boemia e só, mas no final das contas, tem pouquíssimo a ver com ela de fato. É só sobre ousar, sabe, profissionalmente por exemplo: tem tantas idéias aí, e tão pouca ação. Essas dúvidas malditas: você precisa matar elas! Tem que começar por aí, sinceramente... Decide: se quer um de volta, ou se vai lutar pelo outro; se quer se formar logo e vivenciar de fato a faculdade, em uma tacada só, ou se prefere uma pausa, pra morar em outra capital e se desprender um pouco desse grande 'resto de adolescência' que você virou. Diminui as doses de amor-para-sofrer, diminui as sutilizas educadas que seu discurso possui, diminui os sorrisos induzidos e diminui as tardes de facebook. Aumenta os vícios - sim, aumenta os vícios... esses da alma, por exemplo fumar só com uma pessoa, visitar um mesmo jardim toda a semana, ver o sol nascendo em cima de uma pedra, passar noites de edredom-branco com ele, às vezes, sem deixar espaço para os cinco anos pesarem (...) Um desses filósofos que você ama disse uma vez que só tem como se encontrar, depois de se perder de fato. Por favor, vai se perder então... antes que essa inquietude linda, esse impulso contagiante, resolva se perder de você."

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sagrado


"Me faz chorar." Um antebraço se enrolou bem firme em volta de todo cabelo, assim, inteirinho, preso pela mão no extremo, mas enrolado bem firme no pulso. Ainda tava molhado do primeiro banho, cheirando a shampoo, àquele perfume gostoso dela e a calor, principalmente a calor. A outra mão tava perdida faz tempo, gentil e ritmadamente, no lugar certo. Tinham roupas no chão, tinha música no fundo e ele tava pronto para a brincadeira de limites. "Vai, me faz chorar!" A expressão dele ficou entre o fascínio, o desafio e a surpresa. Fazia tempo, é verdade, mas a coisa toda fora bem mais convencional, nas primeiras vezes. Mudou tudo, essa semana. E que bom, porque ousado é mais o negócio dele. Fechou os dedos contra a garganta projetada dela, pra assustar ou enlouquecer. "Mais forte, anda..!" Ah, aí ele uniu mais as cinturas, uniu bem, apertando os ossos até o movimento obsceno virar um só, até doer mesmo, pros dois. "Por favor... forte!" Puxou o cabelo, depois puxou mais, e uniu mais, se projetou mais, até ela abrir a boca e apertar os olhos, de dor, de tudo, de toda a dor que ela queria. Se mexeu rápido, bem rápido mesmo, até ela parar com as ordens e começar a declamar onomatopeias. Ficaram assim, nessa sintonia absurda de perfeição por um tempo. Aí ela girou, inverteu o padrão, começou a pedir com os olhos, mandar com a língua. Deixou ele ganhar denovo, ocupar mais espaço, xingar mais um pouco. Sentiu a nuca arrepiar e se sentiu como um animal, pronta pra mais, com o melhor treinador do mundo. Arranhou um quadril dele e manteve as unhas cravadas, até a cara de dor e prazer aparecerem, até ele responder com uma mordida firme no seu ombro. Cedeu a mais uma combinação fatal de movimentos, tinha sangue embaixo das unhas e sentia a respiração dele disparando contra seu pescoço, soprando sua cabeça cada vez mais pra perto das nuvens. Aí começou virar os olhos pausadamente, e se entregar pra mordaça manual que ele, rapidinho, improvisou - antes que o prédio todo escute. Mas os dois foram perdendo a noção de barulho juntos, a mordaça sumiu quando dois dedos dele viraram brinquedo na boca dela. Ela voltou a pedir, a mandar. Ele obedeceu gemendo, brutal - dominante e dominado. Mais uns poucos minutos e pronto: quase juntos; poesia. Alguém em algum lugar da cidade deve ter ouvido. Mais de um alguém.