sexta-feira, 15 de junho de 2012

Uns 'V's que achei por aqui


"É absurdo dividir as pessoas em boas e más. Pessoas ou são encantadoras, ou são aborrecidas." (Oscar Wilde)
Já começavam morando errado, longe e cheias de diferenças. Uma se escondia nas ruas arborizadas do Higienópolis, com 4 carros em casa, mamãe e papai sempre fingindo pertencer a uma sitcom, dois irmãos mais velhos estudando medicina e vizinhos adolescentes que conheciam quase toda a Europa. A outra, dividia uma cobertura (que na real era só o andar final) com sua tia mais legal, um desses lofts sem paredes, decorados com arte contemporânea, cheios de janelas, em um prédio acabado porém estiloso, no extremo mais central da Consolação. Mas isso é só a parte inventada da história, a que não importa, porque o que importa mesmo são as meninas, e não as voltas que a narradora precisa dar pra despistá-los e contar um pouco mais sobre elas!

Pode ser que a primeira se chamasse Valentina, e a segunda, Vera. 
Talvez as duas quase tivessem 21 anos, e essa pretensão em comum à incompreensão. É, esse frio na barriga constante, essa tendência a ser mais triste do que feliz, esse medo, que nunca passa, de se machucar e machucar os outros... 
Valentina gostava muito e completamente de pássaros. Vera achava que os cachorros eram os animais mais lindos do mundo. 
Valentina ouvia música erudita, mas se apegava mesmo a post-rock, post-pop, post-sex e post-tudo! Vera achava importante apreciar coisas antigas ou nacionais, quando possível antigas e nacionais, mas sua paixão musical residia de verdade em poucas músicas, de uma única banda. 
Valentina nunca amou menos que "muito", ou muito mais que... uma pessoa só, de verdade. Vera se apaixonava com todo o seu coração, todos os dias, pelas pessoas todas e tudo que existia dentro delas. 
Valentina sempre se sentia triste quando pensava na sua família, não sabia se os amava só por causa do sangue, ou se, essa falta de amor-total se dava por, no fundo, serem todos tão falhos e parecidos. Vera não odiava ninguém, mas, se odiasse, seria seu pai... ele nunca fez nada errado, mas como ela podia amar alguém que nunca nem conheceu o suficiente?! 
Valentina gostava de prender o cabelo em um coque alto, entre o hypado e o meigo, mas sem muita pretensão ao estilo - assim era só mais confortável, mesmo, especialmente quando mais curto e limpo. Vera sempre jogava ele todo pra um lado, e depois pra outro, entre o maluco e o agitado, em uma assimetria perfeitamente simétrica, que ficava melhor conforme ele crescia.
Valentina passava férias de frente para o mar, sentindo dó de todo mundo lá embaixo no calçadão: por não entenderem de George Orwell ou anarquia tão bem quando ela entendia - mas também sentia dó dela mesma, olhando pra eles - por não conseguir ser feliz a troco de simplicidades, pequenas convenções sociais, como eles pareciam estar fazendo tão bem. Vera vivia de férias, ou era essa a ideia que transmitia... mas quando paravam faculdade e trabalho, fugia durante uns dias para qualquer lugar bonito com os amigos, ou pior: passava alguns dias de inverno com a família internacional... mas gostava disso, não pareciam família pra ela coisa nenhuma, é lógico, o contato era cordial e limitado, mas Vera gostava disso: sempre reforçava sua compreensão exata de onde pertencia de fato – lá, eram só férias mesmo.
Valentina queria ser escritora, contar para as páginas, e depois para todos que as lerem, um pouco mais de suas angústias e medos, ideias e histórias, referências culturais, paixões e tragédias. Gostava de escrever, ela se entendia quase plenamente enquanto o fazia, sem contar que quando escrevia consideravelmente “bem”, ficava feliz com si própria. Vera também gostava de contar histórias, mas todo o dia, pra todo mundo que pudesse ou devesse se interessar, via folhetos e tablets, voz e imagem, tanto fazia, desde que acontecesse. 
Valentina gostava de sorvete e dias ermos. Vera gostava de acordar tarde e observar as pessoas nos olhos enquanto conversava, essas janelinhas lindas, cristalinas e expressivas. 
Valentina tinha um grande amor, de nome e sobrenome próprios, mãos expressivas e os olhos mais lindos do mundo. Vera amava mesmo a passagem do tempo e a complexidade da psicologia humana, mas também vivia se apaixonando erroneamente, por colegas estranhos, ou só estranhos (que viravam colegas) no metrô. 
Valentina, verde-esmeralda. Vera, vermelho contra preto, ou preto contra azul-índigo. 
Valentina, ocaso e frutas vermelhas. Vera, ecstasy e cheiro de chuva.
Valentina, 505 do Arctic Monkeys. Vera, Arctic Monkeys em From the Ritz to the Rubble.

Se elas se conheciam? Às vezes achavam que sim, as vezes que não. Vera às vezes era o reflexo exato de Valentina, gostos e bairro, sonhos e ambições. Valentina tinha medo de morrer tão... “valentina” assim, e nos finais de semana deixava o cabelo cair em ondas pesadas para um lado só, e fingia ser Vera, enquanto girava pelas calçadas centrais sem rumo, mas na verdade com um rumo só, bem específico e amplo: desconhecido, desconhecidos e desconhecer-se! Quem sabe um dia elas não se encontrem de fato e virem o melhor casal do mundo, ou o melhor indivíduo do mundo – sendo mais que casal, mais que amigas e mais que reflexos internos uma da outra – sendo uma pessoa inteira, nova, bonita e segura de si.

(perdão pelo post gigante!)

2 comentários:

  1. Se o texto é bom, não tem que pedir perdão. Essa é uma história que eu leria muito mais! A-mei, Vic!

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  2. "... gostava de acordar tarde e observar as pessoas nos olhos enquanto conversava."
    Saudades violentas dessa 'V'.

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