sábado, 11 de agosto de 2012

Não namore uma garota que lê

http://asviolentasbright.blogspot.com.br/2012/03/namore-um-cara-que-le.html

Saia com uma garota que não lê. Faça tisso, porque nada é pior do que uma garota que lê. Faça, eu digo, porque uma vida inteira no purgatório é melhor do que meia vida no paraíso, e meia no inferno. Faça, porque a garota que lê possui o vocabulário que pode descrever esse descontentamento de uma vida insatisfeita, um vocabulário que analisa a beleza inata do mundo e a converte em uma necessidade alcançável em vez de uma maravilha alienada. Uma garota que lê faz alarde de um vocabulário que pode identificar a capciosa e desalmada retórica de quem não pode amá-la e a inarticulada causada pelo desespero de quem a ama muito. Um vocabulário, maldito seja, que faz de mim um enganador vazio, um truque barato. Faça, porque a garota que lê, entende a semântica da coisa toda. A literatura tem a ensinado que os momentos de ternura chegam em intervalos esporádicos, mas reconhecíveis. Uma garota que lê sabe que a vida não é planar, ela sabe e exige, que o fluxo da vida venha em uma corrente de decepção. Uma garota que leu sobre as regras de sintaxe, conhece as pausas irregulares – a vacilação e a respiração – que acompanha a mentira. Sabe qual é a diferença entre um episódio de raiva isolado e os hábitos de alguém que se agarra com força a alguém cujo amargo cinismo continuará, sem razão e sem propósito, depois que ela tenha empacotado suas coisas e pronunciado um inseguro adeus. E ela decidiu que eu sou uma elipse e não uma etapa, e, por isso, segue seu caminho. A sintaxe a permitiu que conhecesse o ritmo e a cadência de uma vida bem vivida. Namore uma garota que não lê, porque uma garota que lê sabe a importância de uma trama. Ela pode traçar as demarcações de um prólogo e os cumes afiados de um clímax. Ela sente em sua pele. Uma garota que lê será paciente caso haja pausas e tentará acelerar o desfecho. Mas de todas as coisas, a garota que lê conhece o inevitável significado de um final. E sente-se cômoda com ele. Ela tem se despedido de milhares de heróis com apenas uma pontada de tristeza. Não namore uma garota que lê porque garotas que leem são contadoras de história. Você com Joyce, você com o Nabokov, você com Woolf. Você na biblioteca, na plataforma de metrô, você em um café de esquina, você na janela do quarto. Você, que tem feito minha vida tão difícil. A garota que lê tornou-se uma espectadora de sua vida e cheia de significado. Ela insiste que suas narrativas são ricas, ela apóia seu elenco colorido e sua tipologia. Você, a garota que lê, faz-me querer ser tudo que eu não sou. Mas eu sou fraco e vou deixá-la, porque você tem sonhado, propriamente, com alguém que é melhor do que eu. Você não vai aceitar menos do que já tivemos, e quanto ao "mais", eu não sei se posso te dar. Você vai aceitar nada menos que paixão, e perfeição, e uma vida digna de ser narrada. Por isso, vou deixá-la, garota que lê. Pegue o próximo trem que a levará para o Sul e leve consigo um Hemingway. Eu te... te... Bom, você já sabe, já leu mil vezes essa frase torta, insuficiente e cambaleante feita de três palavras, que, verdadeiras ou não, sozinhas já não tem mais força para mudar o seu enredo.

Guilherme S.
para o blog da Vv.

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