segunda-feira, 28 de maio de 2012

Um desses capítulos

Conexão? Se nós ainda possuímos uma conexão? Ah, dessas que não se explicam. A cabeça pensa onde os pés pisam. E o coração sente o que os olhos veem sim - mas não é chavão dizer isso - é só o que é, quando meus olhos cansados pousam no azul dos seus. Eu espero que você vá, sim, dessa vez eu quase desejo. Eu te ordeno buscar experiências e felicidade absoluta, e já consigo fazer isso sem esperar que seja do meu lado. Vê aqueles lugares lindos por mim, por nós. Pisa naqueles prados altos e suba até o topo daqueles montes esmeraldas, e quando estiver mais alto que as nuvens, pensa na sua juventude e em tudo o que já viveu, pensa no seu potencial e nas músicas lindas que ouvíamos juntos. Vê se faz mais tatuagens lindas e coloridas como essa nova, vê se prova todas as cervejas com nome de Sor, vê se abre o seu coração pro amor - desses grande, desses gigantes - que ameacem superar o nosso... mas só ameacem. O quê? O que foi..? Tá me perguntando se eu 'deixo você ir'? Deixo, Gg, deixo sim... Porque eu te amo com todo o meu coração e sentidos, sei que você sente o mesmo por mim, e o que é verdadeiro volta, lieben. Vou aceitar presentes e ligações ciumentas, vou viver bem também - se não nos verdes da Irlanda, nos verdinhos da Guararema. Vou amar, denovo e denovo, e quebrar a cara ou ser feliz no amor, pelo menos mais algumas vezes. Também vou ligar e te condenar por ter partido sem mim outra vez - mas vai ser só saudade e desespero, você sabe, né? Agora vai, vive o começo da nossa vida eterna sem mim, eu vou sorrir daqui. Te espero no altar, Sr. Âncora.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Não se doe demais pra ninguém, não esqueça de ter orgulho, nada de fazer sacrifícios que você não aguente pagar... Um dia, seja lá o que você achou que valeria à pena, vai acabar - e só sobra você - se não gostar do que se tornou, não sobra nada. Aproveite o colégio, três anos incríveis. Aproveite Harry Potter, você tem tanta sorte de estar crescendo junto com ele! Tente ser mais sociável desde já, você gosta muito de escrever e pretenderá, logo mais, ser uma comunicadora. Cabelo curto é mais fácil. Preto é a sempre uma boa cor. Pode amar, jamais fuja das coisas que um certo Guilherme vai te fazer sentir, mas por favor, também não se espatife em cima delas (igual você meio que já fez)! Não dependa tanto das pessoas que você ama, espere delas o que elas puderem ou quiserem te dar. Vá na Virada Cultural de 2010. Ache a bolsa da japonesa alta bonita, no primeiro dia do colégio. Use o aparelho dental móvel direito! Assista quantos filmes você puder, sempre, toda hora e mais e mais. Seja mais forte quando, no terceiro ano do colégio, uma menina de nome composto esperar que você seja, por ela. Tente chorar menos na frente dos seus pais e da sua prima-irmã, inclusive em um certo super show de abertura, em meados de 2011. Escreva aquela babaquice talentosa junto com o seu super idealizável amigo do inglês. Vá no show da mesma banda escocesa, em 2007, 2008 e 2010. Quando você tiver 13 anos, escute uma música chamada 'Muscle Museum', de uma banda inglesa. Depois, baixe a discografia. Quando a temporada chegar, mergulhe num par de olhos ridiculamente azuis. Quando a temporada passar, engula tudo isso em seco e tente continuar, sem ele. Deixe a sua mãe orgulhosa e entre na estadual, mas saiba ser equilibrada quando a falta de vocação te pedir pra ir embora de lá. Aceite a particular. Peça pra fazer a atividade de filosofia no grupo do santista-tristonho. Escolha fazer amizade com o baixinho divertido que só fala de futebol. Vá viajar no carnaval de 2012, a convite do mestiço. Compre coturnos envelhecidos sempre que tiver a chance. Faça as tatuagens todas que quiser, até aquela, pra ele. Não se preocupe com essa história de ir morar fora, você vai saber quando a hora chegar. Descubra o David Fincher, venere o Cristopher Nolan, se apaixone pelo Martin Scorcese. Encontre uma árvore particular em Guararema, quando Guararema entrar na sua vida. Mantenha a amizade com a japonesa alta, do colégio, porque diferentes ou não, vocês vão virar irmãs e precisar muito uma da outra. Calma... ele é sim o amor da sua vida, mas você vai sobreviver quando até isso parecer impossível. Deixa o cabelo solto, quando tiver paciência. Vá na Virada Cultural de 2012. Sorria atoa no transporte público e tente depender menos da suas seleções musicais. Seja a melhor irmã do mundo, porque o insuportável do Felipe é simplesmente especial. Compre um vestido preto, em 2010, o único que te deixa com cara de moviestar. Mais importante agora: Próximo domingo, assista o futebol... preste atenção no camisa 7 do Santos. É 2002, você tem 10 anos e esse pretinho magricela vai mudar sua vida!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Lembranças finais - I

Quem lembra de ter 15 anos e sonhar com alguém mais alto, andrógeno e de olhos claros pra te salvar das suas angústias?
Eu lembro de ter 14 anos e ir pra uma festa de ano novo com a minha prima. No centro da cidade, com gente estranha e gente esquisita. Mas cheia desses meninos andrógenos. 
Eu lembro de, quase um mês depois, receber uma ligação curiosa no meu celular antiquado. Aí eu já tinha 15 e achava essa história toda de "namorar" uma tremenda de uma perca de tempo.
Mas em três meses, caíram todos os meus preconceitos. E, criança ou não, resolvi pertencer a alguém e aceitar alguém que pertencesse a mim. Eu lembro do show, de um pedido emocionado que envolvia bochechas vermelhas, coração acelerado e Michael, do Franz, tocando ao vivo como funo. Lembro de, primeiramente, desconfiar da minha própria sorte e passar dias incrédula com a sua altura, educação, olhos, rosto e carisma - tudo isso - pra mim? Não era possível não. Mas foi, né?
Eu lembro de, com 16, moldar uma rotina em torno do nosso amor. Lembro de ir mais vezes pra sua casa ti-longe depois do colégio, do que para minha. Lembro de passar horas e mais horas apaixonadas debaixo das suas cobertas de super-herói e, por fim, da nossa primeira vez. Lembro de ter me apaixonado pelo seu cachorro e lembro de quando, finalmente, te contei sobre os meus sonhos e noites ruins. 
Com 17, eu lembro das viagens! Ah, das milhões de fotos e do carro lindo que o seu pai finalmente te deu. Eu lembro de ligar o mínimo pros pedaços da minha vida que não envolviam você e lembro do seu cheio de sândalo e menta, encontrando minha nunca e boca. Eu lembro de chorar igual a menininha dócil e assustada que eu nunca fui, compulsivamente, durante dias, por causa da sua primeira semana na faculdade. Lembro da minha primeira tatuagem e da sua terceira. Lembro de prometer me casar com você e lembro de como, na época, você sorria mais por prazer do que por ironia.
Com 18, eu lembro do circuito de rolês e das merdas alcoólicas lindas que nós, finalmente, podíamos fazer juntos! Lembro de passar no vestibular mais interessante do país e ver a sua expressão orgulhosa e feliz, mas também preocupada e febril. Lembro de ter feito besteira e, por pura insegurança, ter quase estragado tudo em fevereiro... Mas eu também lembro de umas certas serenatas e daquela uma semana solo em Guararema. Lembro de ter conversado, só conversado, sobre intercâmbio... Lembro do seu ciúmes crônico dos colegas da USP, e da sua primeira internação por causa da úlcera. Lembro de nunca ter amado e ter sido tão amada em toda a minha vida. Lembro do... auge. Nosso auge.

[...] 


terça-feira, 1 de maio de 2012

Freud, os filhos, os pais e as melancolias

Hoje eu nasci pro dia bem mais tarde. Uma página foi levando a outra, madrugada a dentro, e quando percebi já passava das cinco. É... tem noites que eu preciso ler, e só. Eu fico menos suscetível à minha própria impaciência e melancolia. Sem contar que consigo encerrar livros monstruosos em poucas madrugadas! Aprendo um pouco, viajo um pouco, e me maltrato um pouco... menos. Enfim. Aí só consegui ter energia pra sair da cama já tarde a dentro, com os olhos cansados ainda, e aquela sensação de deslocamento típica de quando a gente muda muito a rotina do sono.

"Seu pai te ligou duas vezes. Deve ser importante, ligue de volta." É tão engraçado esse seu jeito plácido de dar recados, mãe... Como se ele fosse só meu pai, e não mais seu esposo. Eu sei que a distância é complicada e, sinceramente, nunca fui uma dessas crianças chatas que não entendem divórcio e acreditam que os pais tem de viver juntos pra sempre. Mas porque fazer assim? Porque usar uma aliança dourada nessa mão esquerda aí se, já há alguns anos vocês são só bons amigos com filhos em comum? (...) Mas esse é o menor dos problemas porque não é um problema meu. Desde que vocês não se machuquem abertamente, funciona pra nós, os filhos.

Liguei de volta. Sempre mais calma, educada e condescendente do que eu realmente sou, falei sobre o tempo, futebol e sobre o meu irmão, que não estava presente pra poder falar também. Depois escutei os planos dele pra julho, um pouco sobre o trabalho, a Cristina e basquete... Tudo em meio essa espécie de paciência-ansiosa que eu desenvolvi pra conversar com ele... Quando eu era novinha e o inglês veloz me confundia toda, prestar atenção era essencial, por isso esse nervosinho-atento foi virando um hábito. Desligamos com despedidas educadas e aquela velha promessa de saudades, mais ou menos vazia, corroída pelo tempo e uso (...) É, meus dias andam difíceis, talvez por isso comecei quase instantaneamente a maquinar sobre a coisa toda, ao invés de só sacudir a cabeça e tocar a bola pra frente, como eu faço normalmente.

Fiquei quase meia hora ali, em frente ao telefone, pensando em como... nós nos conhecemos tão pouco, pai. Te disse que fiquei feliz com o meu time, no final de semana, mas o senhor nunca vai saber como futebol é grande aqui nesse país, ou no meu coração. Te contei sobre as aulas de inglês que eu dou pra não passar em branco, enquanto outro estágio não vem, mas o senhor... não tem como saber a professora divertida e impaciente que eu posso ser. Nós falamos sobre o Fê, de como ele continua ridiculamente mais alto e falastrão, mas o senhor não sabe das novas paixões musicais recentes & em comum que nós temos, depois de anos brigando por tudo e qualquer coisa, ou de como nós andamos pirados com as figurinhas da Eurocopa...

Parei de reclamar do jeito frio do meu pai quando eu tinha uns 13 anos. Até mentalmente, eu parei. Desisti mesmo, aceitei. Não significa que tenha parado de me machucar... Talvez eu seja exatamente igual, exatamente. Fria e distante. Quando tímida, quase arrogante. Mas ele é o adulto, e é natural que eu o culpe por não... não me buscar, não procurar me conhecer de verdade. Embora eu não culpe de verdade, não completamente. Quando um relacionamento desses falha nessas proporções, só pode ser culpa das duas partes envolvidas (...) Não, ele nem sempre morou longe... O mais triste mesmo é que, se ele estivesse exatamente aqui, sentado no pé da cama, e me perguntasse sobre o meu dia, nosso diálogo seria tão casual e frágil como foi no telefone. É uma epifania dessas meio tristes, né? Perceber isso, as duas da tarde, sentada sozinha na sala, quando se precisa tanto de alguém. Mas a estranheza some, com o tempo. Tudo bem, dad, tudo bem se você for mais próximo da Cristy. Eu entendo. É só... uma merda lidar com essas coisas, nesses dias nublados e chuvosos aqui do hemisfério sul. É só uma grande merda não poder te falar sobre o Neymar. Ou sobre o quanto ainda... dói ter perdido o Strauss, como ainda dói ridicula, absurda e desprovidamente. De como eu ainda acordo suada e sem ar às vezes, igualzinho na infância, e preciso rezar pra deuses que eu não acredito, chorar baixinho e pra dentro, e me forçar de volta pra um sono perturbado. Ou de como a mamãe continua linda, forte, feminina e a melhor mãe do mundo - engolindo os problemas dela, e os nossos, com aquele sorriso quente. De como eu tive que trancar o alemão no último semestre, por motivos óbvios, e espero que o senhor me perdoe. Ou da faculdade, da vocação que eu ainda não sei se eu tenho... Eu tenho tanto medo de falhar, pai. Falhar pro Fê, que, marrento ou não, se espelha abertamente em mim. Falhar pra mamãe, que aposta todas as fichas dela no meu sucesso e felicidade... Eu não sei se eu consigo ser feliz, pai, ou ter sucesso. Eu não sei se eu consigo viver sem ele. Às vezes, durante semanas, já chegaram a meses antes, eu fico assim... blue, e não sei de mais nada. And that's when I'm most sorry, dad. I'm sorry for having such a... close heart. I'm sorry for not trying hard enough to build a relationship with you. A real one. I'm sorry.