sexta-feira, 23 de novembro de 2012

"Meus traumas são eles mesmos."

- É que ela tá em uma fase onde tudo que importa é o sarcasmo, o sorvete, a falta de perspectiva e os Black Keys.

- Não é nada disso não, cara. Ela não tá em fase nenhuma e esse é o problema. Ela odeia priorizar. Descobriu isso agora, no auge sangrento dos seus vinte anos. Acha complicado, vulgar e primitivo. E não só pessoas, mas conclusões, momentos e ações também. Se ela estivesse em uma fase, seria a fase das prioridades zero.

- É claro que ela tá em uma fase! Não estar simplesmente não faria sentido nenhum. Olha só o tanto de descrédito que você impõem à ela quando diz que não está em uma fase! Veja bem! Tudo que ela assumiu, carregou e maturou nas costas teria sido em vão, agregando nada e machucando por machucar. As dúvidas universitárias, os erros dos outros, as distâncias impostas, a falta de apego, a agressividade da vida adulta, as sutis traições, as gigantescas burradas, as noites de sexo, as noites sem Guilherme. Tudo isso, somado, tensionado e multiplicado, seria igual a "zero teoria", "zero empatia", "zero lição de vida". É quase ultrajante, sabe?

- Sabia que você ia adotar esse viés, brother. É que ela não pensa assim. Não é sobre "se construir", a vida, pra ela. Tem experiências que marcam, é verdade. Tem traumas, lugares e gente que sempre vão significar alguma coisa ou muito boa, ou muito ruim. Mas é porque todo mundo é assim! É o velho Mundo Trauma, do velho Foucault. Fora isso, é só fluir. Quer um exemplo? Ontem a noite. Se tudo o que anda acontecendo fosse parte priorizada e, como tal, eternamente integrante do sistema dela, ontem a noite teria sido impossível - um sonho, um idealismo bêbado de um subconsciente cansado - no máximo!

- Ontem a noite foi sobre sarcasmo, cara. E falta de perspectiva. E esse amor maldito, enorme e carnívoro que nela habita e por ela decide. Mas as prioridades tão lá... A fase das prioridades tá lá! Apanhando pra caramba, sofrida e sofrível, cansada de viagens e semestres sem fim, almejando caminhos mais fáceis, dias mais prazerosos. Mas elas não secam nunca não. Elas se esticam, talvez até demais, pra atender todas as expectativas do orgulho e dos outros. Mas todo mundo precisa de prioridades.

- Confia em mim, não tem prioridade. Tem hoje, amanhã. Tem uns esqueletos no armário, uma vontade maluca de que as coisas deem certo no final. Sabe o que tem, e muito? Medo. Medo de escolher e possibilitar caminhos errados. Falta o "prioritário". Falta saber quem vale e quem deveria valer mais. Falta certeza no trabalho, na escola e no dia-a-dia. Nada importa menos, mais ou "nada". Ontem? Porra, ontem ela passou o dia com o estomago estrangulado e a noite com o eterno-namorado. Ontem ela achou que ia perder, pra sempre, o caráter, se baixasse a guarda pros monstros-de-novela de todo santo dia. Ontem ela sacudiu um diabo, pra dormir com um ponto de interrogação. Ontem ela escolheu, esqueceu, escolheu esquecer & dormir com ele - não porque ela finalmente "priorizou". Foi porque a onda bateu, o mundo cantou. Não tem fase, e se tiver sorvete, sarcasmo e Black Keys, muito bem. Mas fase, fase não tem não. Tem hoje, e tem amanhã.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

1. Lealdade: qualidade, ação ou procedimento de quem é leal. Leal é sincero, franco e honesto. Fiel aos seus compromissos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Eventually...

Faz tempo. E faz falta. Tem dias de sol que uma palavra te empurra pra chuva. E tem dias de chuva que baixa a guarda, se permite sorrir e sente o sol esquentando de dentro pra fora. É uma bagunça. E dessas, pra bem ou pra mal, sem definição. Já teve!... definição. E ela durou anos, simbolica e socialmente. Era um lance meio épico, parecia ter saído do melhor dentre os contos (ainda) não escritos de amor. Até que veio uma explosão atômica, sem dó, pra realinhar todas as moléculas, bagunçando o mais bem definido dos sentimentos, o mais inalterável entre os "status de relacionamento".

Sua mãe até tentou avisar que, se um dia isso acabasse, você iria ficar a mercê de nada além de uma adolescência inteira de memórias. Era verdade. Foi exatamente assim. E demorou tanto pros dois entenderem que "essas coisas acontecem". Que bombas nucleares explodem, as vezes, bem na nossa cabeça - em cima de tudo aquilo que a gente considerava básico e inalterável. E que não existe órgão mais confuso e melancólico que o coração. Foi... uma merda, com o perdão da palavra. Dias na cama, e quando não na cama, querendo estar nela. Doía de dentro pra fora e de fora pra dentro. Toda referência, direcionada ou sem intenção, fazia o estômago vacilar. O quarto e os amigos passaram por uma espécie de reforma: fotos, lembranças, músicas e algumas palavras se tornaram proibidas. Os presentes e itens de forte associação foram pra um baú (literal). E a rotina, coitada, virou fumaça e destroços. 

Passaram o quê, seis meses? Até que eles voltaram a conversar. Os primeiros (re)contatos foram acidentais, limitados e frios. A vontade, a unica vontade - a unica - era de correr, pular no colo, chorar, beijar e gritar que "Eu te amo, eu só te amo. Pra sempre, desde sempre! Te amar é tudo que eu sou, e é tudo o que eu sei fazer." Mas ficaram só no "Oi, tudo bem?" mesmo, evitando cruzar os olhos e passar mais de dois minutos no mesmo ambiente. Até que começou a ficar difícil fingir que tava tudo bem - ou que, um dia, voltaria a ficar. Até que o telefone voltou a tocar na madrugada, aquele toque especial, deixando o rosto quente e as mão trêmulas. Até que... ele apareceu sem ser convidado e eles se beijaram na chuva, se trancaram no quarto. Até que o 'óbvio' voltou a ser 'inevitável'. Mas... e agora? Agora o quê?

(...)