quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

No ano de riquezas, aposto na vitória

Segue abaixo o presente de Natal mais bonito que esta uma recebeu até agora.

"Eu nunca te contei isso. Mas preciso contar.

Te conhecer foi como dar um tiro no escuro. Eu não sabia o que estava por vir, Entende? Era um lance arriscado. Eu poderia ir pelo que eu já conhecia, e mesmo que não confiasse, eu saberia o que ia acontecer. Ou eu poderia escolher você. E eu não sabia a onde isso nos levaria.

Mas eu apostei minhas fichas. Todas elas. No desconhecido.

Sabe aquela história de que você nãop faz amigos, reconhece-os? Eu te achei, nega.

Não, minto.

Acho que você me achou. De repente, você estava na minha vida. Pensávamos igual. Riamos das mesmas coisas. Quando mal pude perceber, você já era aquela pessoa que eu sei que sempre posso contar.

Engraçado pensar na simultaneidade em que tudo aconteceu. Durante esse ano, você ouviu minhas alegrias, me deu bons conselhos, tomou minhas dores. Você me adotou.

                          E eu achei um lar.

Se alguém me perguntasse, eu diria que esse ano foi o ano de riquezas. Nesse ano eu ganhei na loteria.

Ninguém me perguntou, mas eu digo mesmo assim. Faz pouco tempo que você entrou na minha vida, mas já é tanto pra mim!

No ano próximo, e no outro, e no outro

                     Agora não mais às cegas

                Ainda estarei apostando minhas fichas

                              Em você."


Sophie Velasques


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Blame on

O escuro não permitiu que se olhassem nos olhos. E esse foi o único defeito. Aquele tipo de conversa deveria ser frente à frente, coração aberto, a toda prova... verdades, paixão e todo o cuidado do mundo, fluindo de uma para a outra. Mas tudo bem. Emboladinhas nas cobertas, blindadas por silêncio e escuro, também funcionou. Eram raras, as vezes eu podiam deitar juntas, e sabiam varolizá-las. Ela tinha essa mania de destribuir toques-supresa, quando estavam assim. Gostava da forma que a outra tinha de reagir quando as peles se encontravam. Foi no meio de um carinho que me escorregava coluna abaixo que comecei a falar. 

"Eu não consigo mais fazer isso. Preciso te contar uma coisa." Ela se retraiu, recolheu os dedos, cessou o carinho. "O que é?"

Seis anos depois, a que escolheu viver um amor gigantesco e deixou a outra deitada, voltava pra casa e descobriu que ela tinha estado ali. "Ela cochilou na sua cama, estava cansada." Eu sei, eu reconheceria esse cheiro em qualquer, qualquer dia e lugar.

(...)

Gosto de pensar que eu não te perdi. Que eu não abri mão de você. E não deixei você ali, chorando, e me escondi no coração de outra pessoa durante anos e anos. E que - sim, acabou - mas porque tinha de acabar, porque nós nascemos praticamente juntas e merecemos finais separados. Gosto de fingir que foi assim... E que, naquela época, nós continuamos crescendo juntas, e ainda fomos muitas vezes para a praia juntas, e dividimos a mesma cama (em segredo). E odeio quando percebo que te deixei ir morar fora, quando você ainda era tão criança e inexperiente. Não insisti pra que ficasse. E te deixei parar de me mandar emails, ou cobrar telefonemas... Você poderia ter sido a minha alma gêmea - ou a minha melhor amiga - ou o meu maior erro. Você poderia ter sido e eu odeio essa conjugação.

Espero que, de longe, você me odeie. E esteja bem. Feliz.
Espero que você sorria todos os dias e que, um dia, volte a me odiar de perto. 



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Like crazy

Eu me perco (no metrô, na rotina, nas ideias, em mim mesma) toda segunda-feira de manhã. Quando não domingo à noite. Melhor dizendo: não consigo mais me achar.

Fico ansiosa, mal-humorada, sensível. Me relaciono mal com o próprio sangue, com velhos amigos, com futuros colegas.

Planejo, para os dias de semana, horas pós trabalho - solitárias e divertidas - que sempre deixo de cumprir.

Não é infelicidade. Não é depressão. É só o resultado natural de passar três dias com você, duas noite ao seu lado... isso tende a deixar os outros dias borrados, escuros. Assim, meio vazios, mesmo que estejam, também, meio cheios.

Não sei se é bonito, não sei se é saudável. Com certeza sei que parece clichê. O fato é que não é apenas sentimento, també é físico - real. Me sinto incompleta sem sua mão na minha, seu olhar no meu, seu calor em mim. Eu vivo pra dividir a vida com você. Encaro segundas (terças, quartas, quintas e sextas) insanas por você. Pra te ver, te ter - pra ser - ao seu lado. Porque só é assim que dá. Só assim que vira.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Let the world paint a thousand pictures

Minha vida toda presa à um batimento cardíaco.
Um segundo, uma pausa... infinito.
Não sei se é saudável ou lamentável, mas me tornei, de fato, o termo que mais me aflige. Sou um nervo, exposto, pulsante... à flor da pele.
É tão difícil não odiar a maioria de vocês.
Já escrevi tantas vezes que eu preciso de paz, mas talvez seja caos o que eu deseje. Repito. Talvez, talvez... É uma verdade inventada.
A curva (mais uma) da montanha russa chegou. Aquela injusta, que precede a queda. O corpo, a auto-estima e até o sossego... tudo engavetado, tudo pra depois.

"Se ajuda."
"Mas eu só quero uma cerveja gelada e umas estrelas pra olhar. Não tô mais com medo de explodir. Não tô com medo de mais nada. Eu só quero descansar. Fechar os olhos. Deixar as coisas se encaminharem sozinhas."


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Sunrise

"Todo mundo está sujeito a perder tudo."

Eu entendo, mas dificilmente absorvo a angústia dos outros. Tenho pra mim que não é saudável... As exceções são raras - e humanas. Se dão no plano do coração (a dor dos meus amores é também a minha dor) e, mais dificilmente, na fragilidade explicita das nossas existências (o mundo é uma máquina de tragédias e entrar em contato com elas dói).

Mas, as vezes, essa regra não-dita me foge. De vez em quando, eu me deixo mergulhar no desespero por trás dos sorrisos forçados e olhos em pânico que me cruzam por aí. Só penso em escrever, quando é assim... Que egoísta da minha parte! É que eu não sei disso de ser boa pra ninguém que eu já não seja por natureza. Sempre falho quando chega a isso.

Eu espero, então, que fique tudo bem logo. Que as coisas todas, nos lugares todos, sorriam pra você. Sim, você, que não está no Fantástico, nem na atualização de status emocionante de ninguém. Que não é meu namorado, nem minha família, nem minha melhor amiga... Seu mundo vai nascer de novo. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

“Arranca metade do meu corpo, do meu coração, dos meus sonhos. tira um pedaço de mim, qualquer coisa que me desfaça. me recria, porque eu não suporto mais pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum.” 

José Saramago.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Atrás do piano

Angustiado, derramava suas lágrimas de ‘dry martini’ enquanto eu sambava um cigarro apagado entre os dedos e, atônita, não entendia o motivo de tanto desespero da parte dele… acho que era justamente pelo fato de saber o que fez, ou quem sabe ele realmente me amava. Improvável.

Não, até então não sabíamos o sentido dessa palavra… Tinha algo me incomodando um pouco acima do estômago, onde existe aquele negócio ingênuo que pulsa. Então olho pra fora do carro, com esse meu jeito distraído e demente de sentir pena de mim mesma, e admiro o papel que a chuva exercia nesse filme da minha vida que mais parece ser dirigido por alguém que sempre se esquece da ‘venlafaxina’ pela manhã.

Estava perdida dentro do carro dele, assistindo-o espancar o volante com suas mãos finas. Descabelado e rouco, com a cara suja de tristeza. Gritava que me amava enlouquecido, queria tanto que eu acreditasse. Não desejava minha fuga, mas mal sabia que minha mente já estava vagando pela rua no meio daquela multidão.

Abro a porta e saio, na chuva mesmo e fico ensopada. Não consigo nem acender meu cigarro… Sabia bem como me atingir e por isso voou pra fora batendo a porta, deixando os pingos que escorriam do céu borrar sua sombra escura, findando uma bela arte naquele rosto polido. Ele percebeu que me atingiu, e me disparou uma no fígado: “Droga, olha eu aqui… Sei que isso é pedir demais no momento, sendo que nem eu consigo me enxergar direito… Mas… Por favor, me ouve, olha no fundo dos meus olhos e tenta ver algo, qualquer coisa que seja, mas olha dentro… vamos entrar no carro e conversar, eu te levo ao apartamento.”

E sim, por mais fraca e vulnerável que eu possa parecer, me rendi e entrei no carro. E não doeu. Eram seis da tarde e estava quase escurecendo. Cruzavam mil coisas pela minha cabeça, e raiva não era uma delas. “O que será que está acontecendo?”- eu me perguntava. Fizemos o caminho em silêncio. Subimos o elevador como dois estranhos prestes a se descobrir, em direção ao quarto andar e chegando lá, ousei encarar dentro daqueles olhos nos quais novamente me perdi.

Agora sim eu estava entregue, ele não teria punição pelo que fez e eu dando uma de boazinha, na mesma história em que um dia fui a vilã. Desatinei. Aquele banho de insensatez me lavou a alma. Por impulso, o beijei perto da porta logo que fechei e ele desatou num choro sereno de alívio. Sentia o salgado das suas lágrimas na minha boca e as batidas rápidas que vinham do seu coração sendo aquecido.

Se era tudo meio doentio? Claro que era. E eu desmoronei. Fomos pro chão e rastejamos até a sala como um só… Não sabíamos o que era amar antes disso. Não tínhamos muita certeza das coisas. Sabíamos muito menos o que era perdoar até então. Mas, naquela noite ele me amou bem ali, no chão mesmo, atrás do piano.




*essa é uma adaptação livre de uma história antiga, contada por um irmão-camarada

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Keep your eye on the prize, Jenny Humphrey. You can't make people love you, but you can make them respect you.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Babe Vamp

Hoje o cabelão, sempre cheirando deliciosamente a baunilha, veio solto e com as pontas mais claras. Trabalho bem feito de um cabeleireiro legal, mas na minha opinião pessoal, foi o sol que encheu as madeixas de luz. Fazia tempo que não sentávamos uma do lado da outra assim. Parece tempo demais. Não foi planejado... eu cheguei de surpresa e ela e a mãe já estavam por lá. A regata de cores frias me fez pensar em sorvete. A gente se cumprimentou devagarinho, ela molhou o meu rosto com um beijo cumprido. O timbre fino das nossa mães tagarelando não está me incomodando hoje. Da janela, aberta bem em cima de nós, tá soprando um clima agradável. A minha surpreendente pré-disposição em responder sorrisos com sorrisos, não passou despercebida, e ela já tá se mexendo rápido, brincando com os próprios lábios. Não tem nada mais delicado nessa sala, nesse cidade, que as mãos dessa menina. E eu queria dizer isso pra ela agora. Queria ir tomar algo gelado depois dessa conversa sonolenta. E esquecer pra sempre todos os meus problemas. Queria sentir o cheiro do cabelo dela denovo. Sentar bem perto, em um dos bancos do parque... Sentir o vento fresquinho na nuca, e depois passar as costas da mão no rosto da Mrs. Butterfly aqui, with her caramel eyes and her vampire ways. Ela tá me olhando agora. E eu sei que esse devaneio de verão é exatamente o tipo de sugestão que tiraria ela do sério, da órbita e do... calor. Foge comigo pra um lugar que pareça, pra sempre, com essa quarta-feira a noite? A gente pode ouvir música acústica olhando pras estrelas, depois tomar litros de suco ou cerveja bem gelada, e fazer piadas sobre tudo, só pra arrancar sorrisos uma da outra. E aí, quando os nossos ossos cansarem da posição, e a nossa pele da apatia, sempre vai ter lugar pra você mais perto, e mais perto, e mais perto do que o mais perto possível! Meu único pedido: esquece esses padrões e filmes todos, menina... porque eu não quero e nem vou te prometer nada. Mas eu gosto do seu sorriso, estalando tranquilo, perigosamente perto do meu. A gente só precisa pegar essas noites ermas de verão, se jogar uma na outra e esquecer o mundo todo, durante algumas horas e noites. E só, bobinha...


02/05/2010

segunda-feira, 29 de abril de 2013

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Manifesto semanal

Veja bem, segunda-feira, você não entende nada de amor. Se entendesse, nos pouparia de suas tarefas - sem prejudicar nossos sonhos e lutas constantes. Ia ser possível faltar, sem perder matéria e presença. Ia ser aceitável folgar, sem pedir permissão aos editores que lutamos para, um dia, vir a ser.
Mas deixe estar. Você só dura vinte e quatro horas! E mesmo que nos estripe do direito de passar o dia abraçadinhos, fugimos para o telefone. Combinamos um golpe de estado, nesse meio-encontro cronometrado. Não te atingimos diretamente, é bem verdade... Miramos em um de seus frágeis aliados.
"Quarta-feira, vem me ver?" 
"Sim, correndo."
Dura pouco, é claro... Após beijos contados e uma ou duas horinhas trocando sorrisos apaixonados, a milícia (nome: Rotina) descobre tudo e o levante cai por terra.
Mas deixe estar. Nem todos seus aliados são tão resistentes. A sexta-feira, coitada, se mantém cruel e disciplinada nas primeiras horas do dia - segue a doutrina. Mas acaba cedendo às nossas sofríveis reivindicações. Depois da Abril, depois da Metô, na minha, na sua casa? No cinema ou naquele barzinho... Fica tudo bem denovo.
Que a próxima ditadora (segunda-feira, sua maldita) esqueça de chegar.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

"O que te emociona?"

Ganache de chocolate. Séries de televisão. Bosque. Tudo o que o mundo e as pessoas tem (e deixam) implícito. Recheio de nozes. Abraços protetores. Uma cidade chamada Guararema. Sonhos longos. Cafuné (sério). Moedas em quantidades ridículas. As Crônicas de Gelo e Fogo. O refrão de All this and heaven. A recepção da Kiara. Banhos sem fim. Versões acústicas. Mãos finas. Jazz Rock. Show de rock. Cantores de rock. Barbas loiras. Sorrisos que suspiram. Fight Club. Caneta de ponta fina. Olhos de rapina. Alecrim. Sol e vento juntos. Fins de tarde. Psicologia. Chorar de rir. Rever os melhores amigos do passado. Comprar ingressos. Guardar ingressos. Amar ingressos. Chorar em season finales. Sorrir no sorriso do meu irmão. Me acalmar na paciência da minha irmã (a oriental). Me encontrar na paz dele.Verde esmeralda. Jóias que já pertenceram a outra pessoa. Ruivas. Índios. Contos europeus. Titanic. Livros japoneses. Bolsas de caubói. Botas baixas. Inverno. Inverno. Inverno. Sessões noturnas. Chorar por compreensão. Bolinho de chuva. Gifs animados. Bebedeiras memoráveis. Mar sem ondas. Óculos de sol. Confiança implícita. Lealdade. Cães felizes. Personagens absurdos. Jack Sparrow. Tatuagem. Estampas inesperadas. Torta de maçã. Dias de edredom e cortina fechada. Chamar a mãe de "mamãe". Morrer de rir sozinha. Cochilos de metrô que valem a pena. Paixões instantâneas. Desejo pelo mesmo sexo.O encore de Little black submarines. Qualquer versão de Hoodoo. Frases de efeito. Peônias. Boêmias. Quietinhos. Tequila. Decoração oriental. Vasos grandes demais para ser verdade. Madrugadas que findam azuladas. Olhos cheios d'água. Novembro. Manhãs de aniversário. Ser alvo de saudades sinceras. Vinho do Porto.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Love is the coal that makes this train roll

Oh baby, can't you see? 
I'm shining just for you 
Loneliness is over 
Dark days are through 
They're through!
Let me be your everlasting light.

terça-feira, 2 de abril de 2013

"It's all about music"

Acho que foi ali, no solo de dez minutos do Gary Clark Jr., que se deu conta [do título]. Talvez graças ao sol (apesar do sol) que, ali mesmo, castigava todo mundo que parou pra ouvir? Talvez.
Pode ser que tenha sido, mesmo, no momento em que o logo anunciando "Franz Ferdinand" apareceu no palco Butantã, minutos antes da própria banda - uma conhecida de cinco outras festinhas, com essa, seis. Se bem que, as chances de ter sido durante o "let's get wild" sussurrante de Ulyses, ou, ainda, no "lalalala" de The Fallen, são grandes também!
Mais provável mesmo é que tenha sido no momento "desespero" da coisa: estar no palco Acesso, vendo, de tão longe, as luzes piscando empolgadas pro Queens of The Stone Age. Mas, se tivesse que escolher, provavelmente diria que foi entre o solo de Little Sister e a comoção enorme do Josh Homme por estar no seu país.
Acho que foi um pouquinho em cada; o total, no todo. Mas... se ela tivesse que escolher seu momento, se tivesse mesmo, diria que percebeu, de fato, durante Everlasting Light. Ou não? Ou foi no agradecimento tímido - tão esperado - do Dan? "Ohh... thank you, guys, thank you." É claro que Sinister Kid, aquele presente, pra ela e a amiga cantarem empolgadas, praticamente sozinhas, num raio de milhares de fãs, entra nessa lista também. E o hit, pra todo mundo pular e perder a voz junto, com certeza tem seu poder de disputa. 'Cause we got the love that keep us waiting! Ouvir sua lyric favorita dos últimos tempos ao vivo, segurando nas mãos dele, marcou muito também (everybody knows that a broken heart is blind). E as mãozinhas, as jogadas de cabelo, o jogo de luzes. E Strange Times, por favor. E Nova Baby. E Money Maker. Fora o "baraparapa" de Howlin' foy you. Então... é, foi por ali sim.



sexta-feira, 22 de março de 2013

First it giveth, then taketh away

Uma historinha que começa com a protagonista cheia de dor, encolhida e passiva. Com muitos sentimentos estrangulados, nenhuma reação aceitável e uma unica vontade: que dê tudo errado.
Termina com ela seis meses, porém alguns anos mais velha. Passado. A vontade da vez é: que dure para sempre. Bem-feito, e que isso aí dure para sempre.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Nota sobre um inverno que não chega nunca

Eu sei que eu falo muito de estações. Como explicar em uma ou duas frases breves? Sinto que nas estações reside um sentido de divindade. Ou seja, pra mim, é pura espiritualidade. É o que muita gente chama de Deus. É o mundo girando, girando, girando. Mudando, mudando, mudando. 

Enfim. Eu gosto mesmo é do inverno. Por mais triste que ele possa parecer.

Tem quem gosta dele porque acha bacana fingir que não é brasileiro. E odeia calor, futebol, corrupção, funk e pouca roupa. Tudo bem. Cada um com seus juízos de valor. Só acho bobo justificar o amor imenso que sentimos, sim, pelo inverno com essas coisas aí.

Tem que gostar do inverno por causa das névoas matinais que ele traz. Aquele jeito tímido e constrangido que os dias, mais curtos, tem de nascer. Tem que saber apreciar a fumaça pálida que sai junto das nossas frases velozes e respiração angustiada. Sabe as bochechas vermelhas, as mãos unidas e aquela bater frígido de dentes que tanto tememos? No fundo, é puro amor. Frio é uma droga quando envolve sair de uma cama quentinha, de uma sala fechada, de um colo aconchegante. Mas e quando, no meio do dia, você se dá ao luxo de um cappuccino cremoso? Ou só fecha os olhos por um instante, pra escutar as árvores farfalharem e gemerem felizes contra aquele vento que consideramos cruel e "cortante", mas elas, as árvores, consideram tão bem-vindo e dançam felizes.

Outra coisa boa de ouvir, é o primeiro álbum de uma moça chamada Florence, no meio do expediente, enquanto o nariz ainda tá avermelhado da voltinha que, um pouco antes, você deu lá fora. É como se todo o peso do dia (que anda pesado) perdesse o sentido. Você até para tudo pra sobre isso escrever um textinho infantil. Compensa o atraso, essa onda de endorfina geladinha percorrendo sua espinha.

Mas, aí...

Eu lembro do inverno e fico dócil, nostálgica, apaixonada pelos vinte que já vivi e ansiosa pelos próximos cinquenta. Tem a tristeza também... não é culpa minha, ou do inverno. Muito menos da Florence, dos cappuccinos quentinhos e do farfalhar manso das folhas. Que recaia nas lembranças que eu tanto amo e tanto tento fugir de, essa culpa. Essa história de ser notavelmente mais feliz no inverno e de lembrar de todos eles com o coração cheio, tende a fazer um pouco mal quando metade do nosso coração anda tão confuso, escuro e... cego. Ainda é outono.

Faltam três meses pro inverno, de fato, chegar. Minha ansiedade é total, mas incoerente. Se divide, pela primeira vez, entre a boa e a velada. Minhas decisões são nada, além de in-decisões. Eu passo metade do meu dia amando profundamente, e metade me odiando por isso. E o amor é profundo mesmo, independente de pra onde ele vai - já que agora ele descobriu que pode escolher, com a mesma entrega e força, entre dois caminhos opostos. A dor que se segue, é uma coisa cruel e letárgica, que diminui o volume das coisas todas e faz os ossos rangerem. Ninguém pode me ajudar nessa decisão. Sabe por que? Ninguém tinha que tomar decisão como essa.

É verdade que é no inverno que eu lembro como nós fomos (somos?) um. E lembro de uma certeza que, mesmo depois de tanta coisa, eu ainda insisto em ter. Uma dessas que ficam, vinte e quatro horas por dia, ameaçando mudar tudo, e depois tudo outra vez: ninguém nunca foi tão feliz a dois, como nós dois. É verdade, especialmente no inverno. Mas não é a unica verdade. Tudo acima, também é. Além dos vinte invernos perfeitos, cinco deles mais seus do que meus, já vividos, tem os cinquenta que estão por vir. E é nessas horas que eu agradeço por ter escolhido um CD da Florence pra ouvir enquanto escrevo: eu sou dona do meu destino, e o meu coração, por mais dividido e cego que esteja, pode e vai escolher outros caminhos agora.

Parece racional demais, eu sei. E por isso peço desculpas. Mas, por favor, entenda, outono, esse tipo de urgência nunca poderia ser só racional. Eu amo, eu quero e eu vou viver e fazer dos meus próximos invernos o que eu quiser. Decido eu. Decido agora, mais tarde ou só amanhã. Mas dessa vez sou eu. Nem passado, nem inverno, nem futuro. Fiquem, lembranças. Corra, destino. Quem escolhe, ainda sou eu, porque "foi no meio de um inverno sem fim que eu aprendi que em mim existia um verão invencível" (Camus).


Um dica é escutar "Howl", enquanto lê.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Louça

Hoje eu quebrei um copo. E era um copo lindo, transparente, especial. Quase espelhado - me permitia reflexo, meu próprio reflexo - e eu acho que ele nunca tinha me parecido tão bonito antes. Eu quebrei o copo! E foi porque minhas mãos tremeram muito na hora de segurá-lo. Eu sei bem que foi isso que fez ele cair, tenho certeza... sabia que ia acontecer antes mesmo de começar com a louça. E, mesmo assim, comecei... como que pra me provar errada, sem me preocupar por um instante com o coitado do copo que estava ali, nas minhas mãos (trêmulas) o tempo todo. Quando ele caiu, eu vi ele caindo. Podia ter pego. Ou pelo menos acho que sim. Talvez se eu tivesse tendado... mas hesitei. E foi uma hesitação dolorosa. Foi quando ele girou molhado no ar, que eu percebi que me preocupava muito e completamente com ele. Mas, ainda sim, hesitei. Meus punhos travaram, meu próprio corpo me segurando facilmente, como quem diz: "cuida dessa instabilidade primeiro, para de tremer. Não adianta pegar esse copo se vai deixá-lo cair outra vez." (...) Não é justo... copo nenhum tem que pagar pela minha instabilidade. Copo nenhum. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Defesa

Eu já nem lembro mais como abrir a janela depois de um dia chuvoso. 
E não é porque "meu pessimismo não deixa". 
É que aqui já choveu demais. 
Quem não deixa, é o medo.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Transferência para linha 2 do Metrô

Mergulhada na edição atual. Decorando todo e cada jeito de montar uma frase, expressar uma ideia, reunir uns sentidos. A verdade é que eu sempre fui muito boa em absorver o jeito de escrever das pessoas. Sempre que termino um livro, fico narrando minha vida ao estilo do escritor. Me dá duas horinhas com o seu blog, e eu sei fingir que sou você no chat. Enfim. Dessa vez é mais sério, urgente - assustador - se eu não estivesse tão empolgada em aprender, virar parte do time.

A voz pacífica da linha amarela não condiz com aquele apito irritante que antecipa e segue o anúncio. Minha estação. Antes das portas se abrirem, mais do apito irritante. Tirei a cabeça de dentro da revista e... olha só quem tá encostado na porta, essas "duas estações" todas, te observando sorridente!

"Puta que pariu cara, faz tanto tempo!"

E faz. Pensar que a gente estudou junto durante uma época. Parece outra vida. Nem lembro direito de como era lá, de como era com ele. A barba continua linda. Deve ser a barba mais linda de São Paulo. Os olhos, verde-desbotados, continuam cansados. A voz tava vívida, no entanto. Respondeu com um sonoro "Porra, tempo demais, menina!" A gente pulou do metrô de braço cruzado, andou rápido, meio correndo e sorrindo, pra fora do fluxo. Depois, o abraço. No meio desse abraço-monstro deu até pra lembrar um pouquinho dos tempos da FFLCH.  Ficou claro que, na real, nunca esqueci do jeito fraternal, de irmão mais velho, que ele tem de abraçar. Sempre amei, mas nunca me enganou.

"Que linda... Tá linda! Como você tá?!"
"Com... saudade, Thiago, seu maldito! Onde você andou?!"

O horário não deixa o reencontro ser fixo. Caminhando e explicando que "não se faz isso! esse negócio de sumir, não se faz", me disse que tá no emprego dos sonhos. Mais um abraço, pra anunciar que não é só ele. Comprou um carro, se apaixonou por milhares e não ficou com nenhuma. E eu?! Que não tenho carro, só fiz besteira e ainda assim tô feliz? Mencionei coisa ou outra, falei do cachorro novo, do ex-namorado velho. Derrepente, já tava na hora das rampas. São duas. Eu sei que ele desce na Sumaré. Eu sou Tamanduateí. Sentidos errados.

"Vai, a gente tem mais um minuto. Me diz quando eu posso te ver outra vez!"
"Thiago... que saudade, velho."

Gastamos o derradeiro num terceiro abraço, sem falar nada. Tórax coladinho, respiração dividida. Fim das rampas. Deu tempo de tirar um Suflair derretido do bolso e falar cheio de orgulho "tó, é seu, Dona Vi"!


Agora, tô é digitando a sms...
"Vai, me diz onde eu posso te ver denovo."

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O poema mais lindo do mundo, I


You knock
Without knowing that you knocked.
The door opens on a century of clouds and centuries
Of centuries of clouds.
The bird sings among the toyons in the spring’s diligence of rain.
And then what? Hand on your heart.
Would you die for spring? What would you die for?
Anything?

Robert Hass, in "Berkeley Eclogue".