sexta-feira, 22 de março de 2013

First it giveth, then taketh away

Uma historinha que começa com a protagonista cheia de dor, encolhida e passiva. Com muitos sentimentos estrangulados, nenhuma reação aceitável e uma unica vontade: que dê tudo errado.
Termina com ela seis meses, porém alguns anos mais velha. Passado. A vontade da vez é: que dure para sempre. Bem-feito, e que isso aí dure para sempre.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Nota sobre um inverno que não chega nunca

Eu sei que eu falo muito de estações. Como explicar em uma ou duas frases breves? Sinto que nas estações reside um sentido de divindade. Ou seja, pra mim, é pura espiritualidade. É o que muita gente chama de Deus. É o mundo girando, girando, girando. Mudando, mudando, mudando. 

Enfim. Eu gosto mesmo é do inverno. Por mais triste que ele possa parecer.

Tem quem gosta dele porque acha bacana fingir que não é brasileiro. E odeia calor, futebol, corrupção, funk e pouca roupa. Tudo bem. Cada um com seus juízos de valor. Só acho bobo justificar o amor imenso que sentimos, sim, pelo inverno com essas coisas aí.

Tem que gostar do inverno por causa das névoas matinais que ele traz. Aquele jeito tímido e constrangido que os dias, mais curtos, tem de nascer. Tem que saber apreciar a fumaça pálida que sai junto das nossas frases velozes e respiração angustiada. Sabe as bochechas vermelhas, as mãos unidas e aquela bater frígido de dentes que tanto tememos? No fundo, é puro amor. Frio é uma droga quando envolve sair de uma cama quentinha, de uma sala fechada, de um colo aconchegante. Mas e quando, no meio do dia, você se dá ao luxo de um cappuccino cremoso? Ou só fecha os olhos por um instante, pra escutar as árvores farfalharem e gemerem felizes contra aquele vento que consideramos cruel e "cortante", mas elas, as árvores, consideram tão bem-vindo e dançam felizes.

Outra coisa boa de ouvir, é o primeiro álbum de uma moça chamada Florence, no meio do expediente, enquanto o nariz ainda tá avermelhado da voltinha que, um pouco antes, você deu lá fora. É como se todo o peso do dia (que anda pesado) perdesse o sentido. Você até para tudo pra sobre isso escrever um textinho infantil. Compensa o atraso, essa onda de endorfina geladinha percorrendo sua espinha.

Mas, aí...

Eu lembro do inverno e fico dócil, nostálgica, apaixonada pelos vinte que já vivi e ansiosa pelos próximos cinquenta. Tem a tristeza também... não é culpa minha, ou do inverno. Muito menos da Florence, dos cappuccinos quentinhos e do farfalhar manso das folhas. Que recaia nas lembranças que eu tanto amo e tanto tento fugir de, essa culpa. Essa história de ser notavelmente mais feliz no inverno e de lembrar de todos eles com o coração cheio, tende a fazer um pouco mal quando metade do nosso coração anda tão confuso, escuro e... cego. Ainda é outono.

Faltam três meses pro inverno, de fato, chegar. Minha ansiedade é total, mas incoerente. Se divide, pela primeira vez, entre a boa e a velada. Minhas decisões são nada, além de in-decisões. Eu passo metade do meu dia amando profundamente, e metade me odiando por isso. E o amor é profundo mesmo, independente de pra onde ele vai - já que agora ele descobriu que pode escolher, com a mesma entrega e força, entre dois caminhos opostos. A dor que se segue, é uma coisa cruel e letárgica, que diminui o volume das coisas todas e faz os ossos rangerem. Ninguém pode me ajudar nessa decisão. Sabe por que? Ninguém tinha que tomar decisão como essa.

É verdade que é no inverno que eu lembro como nós fomos (somos?) um. E lembro de uma certeza que, mesmo depois de tanta coisa, eu ainda insisto em ter. Uma dessas que ficam, vinte e quatro horas por dia, ameaçando mudar tudo, e depois tudo outra vez: ninguém nunca foi tão feliz a dois, como nós dois. É verdade, especialmente no inverno. Mas não é a unica verdade. Tudo acima, também é. Além dos vinte invernos perfeitos, cinco deles mais seus do que meus, já vividos, tem os cinquenta que estão por vir. E é nessas horas que eu agradeço por ter escolhido um CD da Florence pra ouvir enquanto escrevo: eu sou dona do meu destino, e o meu coração, por mais dividido e cego que esteja, pode e vai escolher outros caminhos agora.

Parece racional demais, eu sei. E por isso peço desculpas. Mas, por favor, entenda, outono, esse tipo de urgência nunca poderia ser só racional. Eu amo, eu quero e eu vou viver e fazer dos meus próximos invernos o que eu quiser. Decido eu. Decido agora, mais tarde ou só amanhã. Mas dessa vez sou eu. Nem passado, nem inverno, nem futuro. Fiquem, lembranças. Corra, destino. Quem escolhe, ainda sou eu, porque "foi no meio de um inverno sem fim que eu aprendi que em mim existia um verão invencível" (Camus).


Um dica é escutar "Howl", enquanto lê.