sexta-feira, 21 de junho de 2013

“Arranca metade do meu corpo, do meu coração, dos meus sonhos. tira um pedaço de mim, qualquer coisa que me desfaça. me recria, porque eu não suporto mais pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum.” 

José Saramago.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Atrás do piano

Angustiado, derramava suas lágrimas de ‘dry martini’ enquanto eu sambava um cigarro apagado entre os dedos e, atônita, não entendia o motivo de tanto desespero da parte dele… acho que era justamente pelo fato de saber o que fez, ou quem sabe ele realmente me amava. Improvável.

Não, até então não sabíamos o sentido dessa palavra… Tinha algo me incomodando um pouco acima do estômago, onde existe aquele negócio ingênuo que pulsa. Então olho pra fora do carro, com esse meu jeito distraído e demente de sentir pena de mim mesma, e admiro o papel que a chuva exercia nesse filme da minha vida que mais parece ser dirigido por alguém que sempre se esquece da ‘venlafaxina’ pela manhã.

Estava perdida dentro do carro dele, assistindo-o espancar o volante com suas mãos finas. Descabelado e rouco, com a cara suja de tristeza. Gritava que me amava enlouquecido, queria tanto que eu acreditasse. Não desejava minha fuga, mas mal sabia que minha mente já estava vagando pela rua no meio daquela multidão.

Abro a porta e saio, na chuva mesmo e fico ensopada. Não consigo nem acender meu cigarro… Sabia bem como me atingir e por isso voou pra fora batendo a porta, deixando os pingos que escorriam do céu borrar sua sombra escura, findando uma bela arte naquele rosto polido. Ele percebeu que me atingiu, e me disparou uma no fígado: “Droga, olha eu aqui… Sei que isso é pedir demais no momento, sendo que nem eu consigo me enxergar direito… Mas… Por favor, me ouve, olha no fundo dos meus olhos e tenta ver algo, qualquer coisa que seja, mas olha dentro… vamos entrar no carro e conversar, eu te levo ao apartamento.”

E sim, por mais fraca e vulnerável que eu possa parecer, me rendi e entrei no carro. E não doeu. Eram seis da tarde e estava quase escurecendo. Cruzavam mil coisas pela minha cabeça, e raiva não era uma delas. “O que será que está acontecendo?”- eu me perguntava. Fizemos o caminho em silêncio. Subimos o elevador como dois estranhos prestes a se descobrir, em direção ao quarto andar e chegando lá, ousei encarar dentro daqueles olhos nos quais novamente me perdi.

Agora sim eu estava entregue, ele não teria punição pelo que fez e eu dando uma de boazinha, na mesma história em que um dia fui a vilã. Desatinei. Aquele banho de insensatez me lavou a alma. Por impulso, o beijei perto da porta logo que fechei e ele desatou num choro sereno de alívio. Sentia o salgado das suas lágrimas na minha boca e as batidas rápidas que vinham do seu coração sendo aquecido.

Se era tudo meio doentio? Claro que era. E eu desmoronei. Fomos pro chão e rastejamos até a sala como um só… Não sabíamos o que era amar antes disso. Não tínhamos muita certeza das coisas. Sabíamos muito menos o que era perdoar até então. Mas, naquela noite ele me amou bem ali, no chão mesmo, atrás do piano.




*essa é uma adaptação livre de uma história antiga, contada por um irmão-camarada