sexta-feira, 14 de março de 2014

Distorcida confissão

Aos 10, queria um cabelo mais bonito, que crescesse mais rápido. Aprendi a me odiar.

Aos 13, pensei em começar a fumar e quando seria a minha primeira vez. Ensinei cada uma das alminhas vazias que se aproximavam de mim a me respeitar.

Aos 15, não via a hora de fugir de casa e morar junto, no campo, com erotismos bucólicos. E essa infantilidade foi maior que toda minha infância junta.

Aos 16, tomei remédio de mais. E não foi sem querer. Não foi de propósito, mas não foi sem querer. Eu tinha sonhos muito ruins, e me revoltava o fato de sentir tanta mágoa, de não saber perdoar... ninguém sofre mais com isso do que eu mesma. Ninguém nunca sofreu e ninguém nunca vai.

Aos 17, eu embalei, enderecei e entreguei meus sentidos e decisões na mão de alguém tão confuso quanto eu. Odeio isso, mas, infelizmente, não lembro de nada da fase que não seja isso.

Aos 18, a equação permaneceu intocada, com a diferença que, quando eu parava pra pensar na minha vida fora dela, sentia ânsia e vontade de fugir de tudo. Cada um dos meus seguidores, que um dia eu amei, viraram coelhinhos de estimação, aos meu olhos. Se eles tentassem fugir, eu iria retalhá-los dentro de mim mesma. Puni-los com a minha própria dor.

Aos 19, eu morri. E renasci mais cruel, mais carente e guardando ainda mais mágoa. Eu perdi os sentidos e construí a imagem perfeita, da garota perfeita, da amiga intocável, do anjinho caído.

Aos 20, eu flutuei. E discuti. E culpei as pessoas erradas, ou as certas pelos erros bons. E guardei mais mágoa. E cresci pra baixo. Os pesadelos perderam força. Expandi a capacidade de lutar, de chutar, de bater, de gritar.... de tentar punir os outros me sentindo mal, e enjoada.

Aos 21, eu estava pronta. E estava no final. E não entendia nada. E me sentia cansada, vazia. Meu ciclo havia acabado. Aquele ciclo havia acabado. Mas eu ainda sentia mágoa, e eu já fumava, e todos os paladinos de alta patente ainda me respeitavam, e respeitariam sempre. Eu ainda sonhava com erotismos bucólicos e ainda tentava (desesperadamente) punir as pessoas com a minha própria dor.

Aos 21, alguém salvou a minha vida. E tirou meus pulmões do fundo do mar. E me amou pelo que eu era. Por mais maluquicesse que isso possa ser.

Aos 21, eu queria fazer algo que eu gostasse. Eu consegui, meio por instinto, meio por vocação. Eu conheci mais gente e provei mais líquidos do que eu possa recordar. Reme contra a maré e cheguei ao topo da cachoeira, onde eu levantei maior e mais forte. E eu ainda guardei muita mágoa ruim, e isso ainda me machuca muito.

Aos 22, ele ama e está tudo bem. Eu me conheço e tem partes de mim que eu sempre odiarei.