domingo, 11 de janeiro de 2015

O manifesto da tristeza da gente

É essa nuvem, essa maldita nuvem de vapor quente, que de tempos em tempos cozinha a metade boa da gente, que precisamos aprender a respeitar.

A metade que fica são só coisas chatas, dançando em círculos, pisando nas certezas e nas good vibes. Mas nós, os romancistas, temos de entender e dar vazão pra tudo isso.

Viver de olhos fechados, espreitando o lado de dentro da nossa cabeça, é um amor... e um caos.

Mas nós não implodimos. Muito provavelmente porque crescemos recebendo atenção demais e valorizamos um chororô dos bons. Isso é fato. Gostamos mais dele do que do famoso discurso de superação (não somos muito fãs desse finalzinho desesperado, pra falar a verdade. Não nos convém ou convencem, porque somos lúcido demais pra isso).

O bright side é que a gente sabe o quanto é ou ainda será feliz. E sabe melhor ainda desfrutar de tudo isso. Ficar de cara-feia uns tempos pode ser, quem sabe, a manobra genial dessa nossa bela e sofrível equação.

Não recomendamos. E nem abrimos mão. Porque faz parte do nosso fluxo e só prova que temos os corações mais gigantes do mundo. E daí que reclamar e remoer são nossos pecados preferidos?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Stranger

O cabelo é enorme. E cheiroso.

De de perto, o aroma é floral e doce, mas quando se agita, de hortelã e folhas secas. As pontas são bem claras e onduladas e a raiz é, pode-se dizer, castanha acinzentada. É um cabelo cheio, sabe? Ridiculamente longo e volumoso, mas de um jeito muito especial. Quase tímido.

Todos os ossos são muito bem pronunciados. É até magra demais, segundo as convenções. Os quadris estão mais para duros do que arrendondados, mas tem um movimento gracioso, é preciso admitir. Como se o tempo todo ela estivesse na ponta dos pés, feito uma bailarina. A silhueta é bonita, no geral, principalmente porque é uma mulher alta. A a postura é tão ávida que, por vezes, ela até parece assustada, pronta pra sair correndo.

O nariz é minúsculo e sardento, o que é estranho, porque o restante da pele é padronizada e bem... bronzeada. As extremidades pontudas dos ombros estão, inclusive, descascadas do sol. Parece que ela passou a vida inteira no litoral, embora venha do campo. Tem umas mãos finas de pianista, cheias de anéis minúsculos e descascados. As unhas não são enormes, nem tem esmalte algum, mas estão bem polidas.

A boca é normal. Mas não é muito justo descrever assim. No rosto dela, fica perfeita, como que desenhada ali mesmo. Só que é difícil explicar esse efeito, pois não é muito grande, ou larga, ou rígida, ou grossa. É normal e perfeita pra ela. 

Os olhos são escuros e estão sempre baixos, sonolentos, sorrindo de desconfiança. Ou de interesse, pode ser. São bem misteriosos e por isso tão legais. Os cílios enormes deixam ela com aquela expressão de rapina. Estão recheados de máscara escura, quase exageradamente,embora tenham dado um contraste interessante com os cabelos claros.

Usa um shorts jeans daqueles com a cintura bem alta. Ele é muito, muito justo e deixa todo seu esqueleto rebolando, exposto. O top é branco com detalhes marrons e azuis, tipo de seda esvoaçante. Cai num ombro revela o sutiã vinho escuro. Está com os tênis brancos imundos. Também estão surrados e deixam aparecer o formato desengonçado e ossudo de seus pés.

Fala pouco e sorri por educação. Tem uma pontada de ansiedade em tudo o que faz. É uma falsa "calminha". 

Não gosta de suco de caixinha porque é "industrializado de mais". Adora gatos e trabalha com jóias e bijuterias, meio que como freelancer (o que significa que ainda é sustentada pelos pais). Tem dois irmãos mais velhos, um deles é um cineasta promissor.

Só toma leite de soja e cerveja preta. Só fuma cigarros clássicos, com o filtro vermelho. Só usa ecstasy e jura só sair a noite uma vez na semana. Tem uma moto. É amarela, esportiva, barulhenta e extremamente bem cuidada.

Odeia bichos de pelúcia e tem alergia a praticamente todo tipo de inseto. Adora dormir ouvindo a chuva. Acampa sozinha desde os 11 anos. Tem duas tatuagens e um piercing - todos escondidos pela pouca roupa. Gosta de música eletrônica conceitual e alternativa, dessas importadas da Islândia e do Canadá.

Nunca votou e nunca comeu carne de porco. Adora cereja, daquelas nojentas que na verdade são chuchu, em conversa. Coleciona moedas antigas e tem 85 pares de sandália. Já morou na Áustria. Tem três ex-namorados e uma amiga colorida. Odeia apelidos populares. Sabe cantar o hino nacional ao contrário. Lê em média três livos por mês. 

Toma banho como hobby. Adora velhinhas e odeia meninos adolescentes. Carrega consigo fotos de toda a família e amigos. Corre quando está sem sono. Tem obsessão por higiene bucal. Apóia o topless. Foi criada pelo pai. Entende e apóia o 69. Quer viver mais cem anos. Quer um amor de duzentos.




Haikais de um tempo esquecido

Dos meus poucos dias dolorosos de adolescente, só saíram coisas boas, hoje consigo perceber.

Dá até para listar: minhas duas melhores amigas, minha coragem para enfrentar qualquer tristeza, minha capacidade de amar alguém incondicionalmente e - afinal de contas, é disso que estamos falando - minha belíssima coleção de haikais.

Me arrependo de não ter recolhido todos os créditos devidamente. De coração. Não tinha uma visão jornalística do mundo na época e não me importava muito com os autores. Era tudo sobre os versos. Três versos, somente os versos.

Abri esse arquivo hoje e deixei o melhor tipo de nostalgia me massagear por algumas horas. Compartilharei os que ainda me "tiram o ar".

Nenhum é meu, mas todos são.

Toco no teu sexo
espraio-me no teu corpo
um porto de abrigo

Incoerente
retardatários
Sempre na frente

Depois de horas
nenhum instante
como agora

Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
a gilete

Correndo risco
a linha do corpo
ganha seu rosto

Manhã
me ilumino
de imensidão

Os beijos da tarde
são feitos de mil fragrâncias
de velhas saudades

No ar circunvoando
vivo-escarlatas
indolentemente

Faisão da montanha,
o sol da primavera
pisa sua cauda

Absorto no dia-a-dia
nem percebei que o aborto
veio em forma de poesia

O gato que dorme
tem sonhos de passarinho
na sombra do muro

Pardal sozinho
primeira aventura –
fora do ninho

Descansar na tua paz
(é tudo azul no infinito)
um tombo para o precipício

É devassa essa mulher
que seus sonhos expõe
quando abre a vidraça

Lírio do vale
oriental
brilhante!